sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Carta do Prelado (agosto de 2009)

Saudações queridos leitores!

Todos os meses publico a carta enviada pelo Prelado do Opus Dei, Dom Javier Echevarría. É uma grande fonte de meditação e conhecimento, além de mostrar ao mundo muito do carisma da Obra.

Carta do Prelado (agosto de 2009)

Carta mensal do Prelado, desta vez enviada do México. D. Javier Echevarría aproveita as festas marianas do mês de agosto para lembrar-nos da proximidade de Cristo e de sua Mãe, convidando-nos a imitar a sua vida cotidiana.

07 de agosto de 2009

Caríssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

Assumpta est Maria in caelum, gaudet exercitus angelorum [1]; Maria foi levada ao céu, em corpo e alma, e os anjos participam desse júbilo. Também todos nós, cristãos, nos enchemos de alegria porque a Virgem vive eternamente na plenitude de Deus, contempla e ama a Santíssima Trindade na glória do Céu.

Ao aproximar-se a solenidade do dia 15 de agosto, Assunção de Nossa Senhora, desejo recordar-vos que esta grande festa nos impele a elevar o olhar ao céu. Não um céu feito de idéias abstratas, nem um céu imaginário criado pela arte, mas o céu da verdadeira realidade, que é o próprio Deus: Deus é o céu. E Ele é a nossa meta, a meta e a morada eterna, da qual provimos e para a qual tendemos [...]. É uma ocasião para ascendermos com Maria às alturas do espírito, onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica, a da santidade [2]. Como e com que assiduidade recorremos à Santíssima Virgem para nos comportarmos sempre e em tudo com sentido sobrenatural? Pedimos à nossa Mãe que cresça nas nossas almas o espírito contemplativo?

As palavras de Bento XVI que acabo de citar são uma eficaz introdução ao mistério de fé que nos preparamos para saborear mais uma vez. Como escreveu São Josemaria, é este um mistério de amor. A razão humana não consegue compreendê-lo. Só a fé pode esclarecer como é que uma criatura foi elevada a uma dignidade tão grande, até se converter no centro amoroso para o qual convergem as complacências da Trindade. Sabemos que é um segredo divino. Mas, tratando-se da nossa Mãe, sentimo-nos capazes de entendê-lo mais do que outras verdades de fé, se é possível falar assim [3]. Dirijamo-nos ao nosso Padre – que contempla face a face o Senhor, a Santíssima Humanidade de Cristo, a Virgem, os anjos e os demais santos – com o pedido expresso de que nos obtenha luz de Deus para aprofundarmos nesta verdade de fé e deste modo amarmos mais e admirarmos mais Santa Maria.

Sugiro-vos em primeiro lugar que pensemos a fundo na resposta quotidiana da Virgem, que nos detenhamos – na meditação pessoal – nas passagens da Sagrada Escritura que nos falam dEla: embora sejam poucas, contêm já todas a magnalia, as grandezas daquilo que o Espírito Santo quis revelar-nos acerca da Mãe de Deus e Mãe nossa: uma riqueza imensa, que cabe a cada um de nós descobrir, guiados sempre pelo Magistério da Igreja. Aconselho-vos a repassar também algum tratado de mariologia e a esforçar-vos por aprofundar – mediante uma leitura meditada e profunda – nas coisas inefáveis que o Todo-poderoso, cujo nome é Santo [4], realizou na Virgem. O cântico do Magnificat, que brotou dos lábios e do coração de Maria inspirada pelo Espírito Santo, mostra-se como a melhor escola para conhecermos, tratarmos com intimidade e imitarmos a nossa Mãe: é um retrato, um verdadeiro ícone de Maria, no qual podemos vê-la tal como é [5].

Reparemos de modo especial na sua vida de oração. Assim a descobrimos ao contemplarmos o primeiro mistério gozoso do Rosário. A Senhora do doce nome, Maria, está recolhida em oração. Tu és, naquela casa, o que quiseres ser: um amigo, um criado, um curioso, um vizinho... [6]. Metamo-nos perseverantemente nesta cena para acolhermos com seriedade o convite do nosso Padre. Empenhemo-nos em encontrar – cada um, cada uma – o nosso lugar, ao repassarmos diariamente esse acontecimento-chave da história da nossa salvação, e também na recitação do Ângelus e do Rosário. Podemos pensar em que a Virgem se mantém constantemente em conversa com Deus, e assim se acha quando o Arcanjo lhe transmite a embaixada divina. O mesmo acontece no segundo mistério luminoso, em que, com o seu comentário nas bodas de Caná, a Virgem expõe a Jesus a sua súplica confiante e obtém dEle que realize o seu primeiro milagre, antecipando de certo modo a sua hora, e que os primeiros seguidores do seu Filho recebam o dom da fé, como anota o Evangelho em poucas palavras: Os seus discípulos creram nele [7].

É precisamente São João, o discípulo amado, quem nos transmite este dado. Revela-nos que a Santíssima Virgem, que até esse momento cuidara do seu Filho durante os anos de vida oculta em Nazaré, foi chamada a continuar a colaborar diretamente com o mistério da Redenção. É este desígnio divino que se insinua na resposta de Cristo à súplica da sua Mãe: Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora [8]. O Senhor refere-se ao sacrifício da Cruz. Quando chegar esse momento, quererá – com lógica sobrenatural e humana – que a sua Mãe se encontre junto dEle, como nova Eva, para cooperar na restauração da vida sobrenatural das almas. Assim o relata também São João: Estavam junto da cruz de Jesus a sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Vendo Jesus a sua mãe e perto dela o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: “Mulher, aí tens o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Aí tens a tua mãe”. E dessa hora em diante o discípulo a acolheu em sua casa [9].

Recordava acima, com palavras do Papa, que a festa da Assunção nos convida a erguer os olhos para o céu, a morada definitiva para a qual nos dirigimos, mas sem esquecer – outro ensinamento de Maria – que, antes de ser levada em corpo e alma para o céu, a Virgem acompanhou de perto Jesus Cristo na sua Paixão e Morte redentoras. A nova Eva seguiu o novo Adão no sofrimento, na paixão, assim como na alegria definitiva. Em Cristo residem as primícias, mas a sua carne ressuscitada é inseparável da de sua Mãe terrena. Maria, e nEla toda a humanidade, está envolvida na Assunção para Deus, e com Ela toda a criação [...]. Nascem assim os novos céus e a nova terra, na qual já não haverá pranto nem lamento, porque já não existirá a morte (cfr. Apoc 21, 1-4) [10].

A colaboração da Virgem com o sacrifício da Cruz foi única; por isso a Igreja a honra “com os títulos de Advogada, Auxílio, Socorro, Medianeira”, sem que isto “tire nem acrescente nada à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador” [11]. É nesta cooperação estreitíssima com a obra da Redenção que assenta também o título de Mulher eucarística com que João Paulo II a chamou na sua última encíclica. A Sagrada Eucaristia é a atualização sacramental do sacrifício da Cruz, porque na Santa Missa se faz presente o que se realizou no Calvário. E não se pode passar por alto que, no Gólgota, o Senhor manifestou à Virgem a sua nova maternidade. “As palavras de Jesus – sublinha João Paulo II – assumem o seu significado mais autêntico no quadro da missão salvífica. A circunstância de terem sido pronunciadas no momento do sacrifício redentor confere-lhes o seu valor mais alto. Com efeito, o evangelista, depois das palavras de Jesus à sua Mãe, acrescenta um inciso significativo: «Sabendo Jesus que tudo estava consumado» (Jo 19, 28), como se quisesse sublinhar que o seu sacrifício tinha culminado ao confiar a sua Mãe a João e, nele, a todos os homens, dos quais Ela se converte em Mãe na obra salvadora da salvação” [12].

Em cada Missa, a Virgem acha-se misteriosamente presente junto do altar onde se atualiza de modo incruento o Sacrifício da Cruz. Nesse insondável mistério – escreveu o nosso Padre – percebe-se, como que por entre véus, o rosto puríssimo de Maria: Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo [13]. Esta é a firme convicção da Igreja, manifestada numa das orações que a liturgia recomenda aos sacerdotes para se prepararem melhor para a celebração do Santo Sacrifício: À vossa piedade recorro, ó Mãe de piedade e misericórdia, Santíssima Virgem Maria [...], para que, assim como estivestes junto do vosso dulcíssimo Filho pregado na Cruz, também estejais junto de mim, miserável pecador, e junto de todos os fiéis que aqui e em toda a Santa Igreja vamos participar daquele divino sacrifício [14]. Recorres filialmente a Ela, todos os dias, antes de celebrares ou participares da Santa Missa?

De Belém até o Gólgota, a Santíssima Virgem soube mostrar Cristo, conduzir para Cristo os discípulos do seu Filho, homens e mulheres: se João, Maria Madalena, Salomé e as demais mulheres – como nos pormenoriza o Evangelho – perseveraram firmes junto da Cruz de Jesus e depois foram testemunhas da sua ressurreição, isso se deveu a que não se afastaram de Maria naquelas horas; a que a acolheram em sua casa – em todo o espaço da sua caminhada espiritual – desde o momento inefável em que Cristo os confiou à sua Mãe no Calvário.

Minhas filhas e filhos: Aquela que é toda de Deus, Mulher eucarística e Mestra de oração, quer que intensifiquemos o trato com Ela, que lhe peçamos que nos ensine a enamorar-nos de Jesus Cristo com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, para sermos inteiramente fiéis nos diversos momentos e circunstâncias. A festa da Assunção da Virgem propõe-nos um grande mistério de amor: Cristo venceu a morte com a onipotência do seu amor. Só o amor é onipotente. Esse amor impeliu Cristo a morrer por nós e assim vencer a morte. Sim, só o amor faz entrar no reino da vida! E Maria entrou atrás do seu Filho, associada à sua glória, depois de ter sido associada à sua paixão. Entrou ali com ímpeto irreprimível, mantendo aberto atrás de si o caminho a todos nós. Por isso a invocamos hoje como “Porta do Céu”, “Rainha dos Anjos”e Refúgio dos pecadores” [15].

Desfiemos piedosamente a ladainha e as demais orações marianas – a Ave-Maria, a Salve, o Rosário e as jaculatórias que o carinho filial nos sugira – com esmerada devoção e piedade de filhos, porque Maria, Virgem sem mancha, reparou a queda de Eva; e esmagou com seu pé imaculado a cabeça do dragão infernal [16]. Unidos a esse grande enamorado da Virgem que foi e é o nosso Padre, admiremos mais como o Pai, o Filho e o Espírito Santo a coroam como Imperatriz que é do Universo.

E rendem-lhe preito de vassalagem os Anjos..., e os patriarcas e os profetas e os Apóstolos..., e os mártires e os confessores e as virgens e todos os santos..., e todos os pecadores, e tu e eu [17].

Nas cartas e documentos de família, São Josemaria costumava assinar com o nome Mariano. Entremos, pois, na escola de Mariano, imitando o nosso Padre na sua terna devoção pela Santíssima Virgem, como filhos pequenos que em todo o momento se sabem necessitados dos cuidados da sua Mãe.

Santa Maria, além disso, mostrou-se sempre Mãe do Opus Dei, desde o seu nascimento, e a Obra desenvolveu-se ao amparo do seu manto: precedeu-nos, acompanhou-nos e seguiu-nos em todos os passos da nossa história familiar e do nosso peregrinar pessoal. No mês de agosto, recordamos alguns desses momentos: a Consagração da Obra ao Coração dulcíssimo da Virgem, em Loreto, a 15 de agosto de 1951, que renovamos anualmente; o convite para recorrermos à misericórdia divina por meio do Trono da glória, que é Maria, a 23 de agosto de 1971... E tantas outras intervenções da Rainha dos céus e da terra que agora é impossível enumerar.

Nestes dias, encontro-me no México, aonde vim para participar da dedicação da igreja construída em honra de São Josemaria, no Distrito federal. Com cada uma e cada um de vós, dou também graças a Deus, porque esta circunstância me permitiu rezar diante da Virgem de Guadalupe na Villa, evocando os passos do nosso Padre em 1970. Algumas das intenções que então absorviam o coração do nosso Fundador mantêm-se plenamente atuais; outras já se cumpriram, graças à intercessão da nossa Mãe. Vim, insisto, em nome de todas e de todos – os que agora estamos na Obra e os que chegarão no decorrer dos séculos –, para pedir pela Igreja, pelo Papa e seus colaboradores, pelos Bispos e sacerdotes do mundo inteiro – especialmente neste Ano sacerdotal –, pelo Opus Dei e por todo o povo cristão; pelo nosso enamorar-nos quotidianamente de Jesus Cristo. Conservo muito presente na memória aquela locução que tanto sacudiu o nosso Padre, e que nos relatou imediatamente com uma comoção visível em agosto de 1970; vimo-lo muito instado a comportar-se como perseverante rezador. O Senhor imprimiu na sua alma aquelas palavras – Clama, nem cesses! [18] – que desejo que incorporemos à nossa piedade e aos nossos afazeres.

Acompanhai-me nas minhas petições, especialmente no dia 15 de agosto, quando renovarmos a consagração ao Coração dulcíssimo de Nossa Senhora. E meditemos com profundidade nesta recomendação de São Josemaria:

Adeamus cum fiducia ad thronum gloriae, ut misericordiam consequamur (cfr. Hebr 4, 16). Tende-o muito presente nestes momentos e também depois. Eu diria que é um querer de Deus: que metamos a nossa vida interior pessoal dentro dessas palavras que vos acabo de dizer. Escutá-las-eis às vezes sem ruído nenhum, na intimidade da vossa alma, quando menos o esperardes.

Adeamus cum fiducia: ide – repito – com confiança ao Coração Dulcíssimo de Maria, que é nossa Mãe e Mãe de Jesus. E com Ela, que é Medianeira de todas as graças, ao Coração Sacratíssimo e Misericordioso de Jesus Cristo. Com confiança também, e oferecendo-lhe reparação por tantas ofensas. Que nunca vos falte uma palavra de carinho: quando trabalhais, quando rezais, quando descansais, e também nas atividades que parecem menos importantes: quando vos divertis, quando contais uma anedota, quando fazeis um pouco de esporte...: com toda a vossa vida, numa palavra. Ponde em tudo um fundamento sobrenatural e um trato de intimidade com Deus [19].

Com todo o afeto, abençoa-vos

o vosso Padre

† Javier

México, 1º de agosto de 2009.


[1] Missal Romano, Assunção de Nossa Senhora, Aclamação antes do Evangelho.

[2] Bento XVI, Homilia na solenidade da Assunção, 15.08.08.

[3] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 171.

[4] Lc 1, 49.

[5] Bento XVI, Homilia na solenidade da Assunção, 15.08.08.

[6] São Josemaria, Santo Rosário, primeiro mistério gozoso.

[7] Jo 2, 11.

[8] Ibid., 4.

[9] Jo 19, 25-27.

[10] Bento XVI, Homilia na solenidade da Assunção, 15.08.08.

[11] Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 62.

[12] João Paulo II, Discurso na audiência geral, 29.04.97.

[13] São Josemaria, La Virgen del Pilar, artigo publicado no “Libro de Aragón”, Saragoça 1976.

[14] Missal Romano, Orações preparatórias para a Santa Missa.

[15] Bento XVI, Homilia na solenidade da Assunção, 15.08.08.

[16] São Josemaria, Santo Rosário, quinto mistério glorioso.

[17] Ibid.

[18] Is 58, 1.

[19] São Josemaria, Notas tomadas numa tertúlia, 09.09.71.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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