Saudações queridos leitores!
André Petry faz parte de uma vertente jornalística que eu chamo de "jornalismo quadrúpede". Ele não vive apenas do que acontece na mídia, mas é um porta bandeira da anti-religião que tenta tomar de assalto a civilização. Quando essa vertente da "razão" chega ao poder, podem preparar-se para o sangue correr (vide comunismo e Revolução Francesa). Fiquem com sua coluna na Veja (em vermelho) com comentários meus.
É pesquisa (ou lixo)
Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal decide um dos temas mais relevantes de sua história. Os ministros dirão se é válida ou não a Lei de Biossegurança, no trecho que autoriza a pesquisa de células-tronco de embriões humanos estocados em clínicas de fertilização. Pela lei, os embriões têm de ser inviáveis ou estar há pelo menos três anos congelados. Em qualquer caso, exige-se a permissão dos donos. Como as células-tronco embrionárias são o mais promissor caminho para vencer doenças hoje incuráveis, a aprovação da lei foi saudada como um generoso convite à ciência, ao progresso e à vida.
Para que os leitores não se enganem, é necessário saber que as células tronco embrionárias não são tão promissoras assim. Nos países onde a pesquisa com tais células é liberada não foi constatado até hoje nenhum avanço extraordinário que justifique tal afirmativa. Ao argumentar desse jeito, parece que o Santo Graal da pesquisa com células embrionárias está no Brasil, faz-se pensar que automaticamente aparecerão por aqui as curas para as doenças. Não é assim. As pesquisas com células tronco adultas, que a Igreja apóia, têm dado bem mais resultado hoje em dia.
Mas aí apareceu o então procurador-geral Cláudio Fonteles, que entrou com uma ação no STF dizendo que a destruição de embriões era inconstitucional. Fonteles diz que os embriões, sendo resultado da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, são seres humanos no estágio inicial da vida. A Constituição protege a vida. Portanto, pesquisá-los, ou destruí-los, é como matá-los. E matá-los é inconstitucional. Pronto: a ciência virou sinônimo de assassinato, geneticistas viraram homicidas. Eis o beco obscuro em que a fé do procurador quer nocautear a ciência, o progresso e a vida.
Se os embriões não estão vivos ou não são humanos, o que são? Eu já fui um embrião, você, Petry, também (só não sei se da mesma espécie). O argumento não é religioso, mas sim lógico. Cabe agora ao STF definir a partir de quando se deve reconhecer a vida, que é inviolável em todos os seus estágios. Isso nem sequer é questionado.
Para tanto, o procurador propôs ao STF uma questão: quando começa a vida? Se começa na fecundação, como ele acredita, a lei viola a Constituição. Se a premissa é verdadeira, a conclusão está correta, mas a questão é capciosa. Capciosa porque ninguém sabe se a premissa é verdadeira. Não há resposta exata e consensual para definir o começo da vida. Seria na fecundação do óvulo? Ou quando o óvulo se prende à parede do útero? Ou na formação das terminações nervosas? Ou vida humana só existe quando existe consciência? O que distingue a vida humana da animal? São perguntas sem respostas unânimes.
Essa questão não é unânime nem mesmo em meio aos cientistas que querem a aprovação das pesquisas, o que mostra que há muito já se perdeu a noção constitucional da inviolabilidade da vida, tratando os embriões da forma que mais lhes convém. Em um dado momento, eles argumentam que não há vida, mas quando é conveniente, dizem que não podem usar embriões "mortos". Ora essa, mas se eles não reconhecem a vida nos vivos, o que os permite reconhecer a morte dos mortos?
O procurador não apresentou a questão capciosa porque é mau ou diabólico. Apresentou-a porque é um católico ardente. Nessa condição, propôs um dilema que pertence à pauta religiosa, e não à sociedade laica. Lamentavelmente, confundiu a Constituição com a Bíblia. Disfarçou, claro. Na ação ao STF, ele lista cientistas que defendem sua tese, mas omite que são católicos militantes. Um é da CNBB. Outro é da Academia Pro Vita, do Vaticano. Seis assinam obra da Pastoral Familiar. Os estrangeiros pertencem à reacionaríssima Opus Dei. Fonteles esconde tudo isso do leitor.
Mais uma vez utiliza-se da profissão religiosa para desqualificar os argumentos. Agora, se eu menciono que a Dra. Mayana Zatz é judia, o mundo pode desabar sobre mim, pois logo me acusariam de usar argumentos anti-semitas contra ela. O restante do mundo não tem a metade da rejeição à religião que Petry. Ele argumenta que o fato de alguns dos cientistas contrários às pesquisas com células embrionárias serem Católicos é daninho para o debate. Ei, Petry! O Estado é Laico mas não é anti-religioso, portanto rotular os cientistas contrários às pesquisas de Católicos não deve influenciar em absolutamente nada no debate.
Mas o Petry é um cara incrível. Ele alimenta um ódio que beira o irracional contra o Opus Dei. No artigo ele joga sobre alguns cientistas o "peso" de serem do Opus Dei. Quem são eles senhor Petry? Dê nome aos bois!
Esconde porque, fora dos cânones divinos, o que realmente interessa – já que não sabemos quando começa a vida – é o destino de milhares de embriões humanos estocados nas clínicas de fertilização: a lata do lixo ou o laboratório de pesquisa? A resposta é óbvia. Óbvia até para crentes que, não sendo dogmáticos, distinguem o mundo real do encantamento mágico. É o que mostra pesquisa ainda inédita, reproduzida aqui, feita pelo Ibope por encomenda do grupo Ca-tólicas pelo Direito de Decidir: 95% dos católicos defendem a pesquisa de células-tronco embrionárias e 94% dos evangélicos pensam do mesmo modo. Belíssimo.
Aqui, vemos a velha tática de acusar os adversários daquilo que ele faz. Ele diz que a "belíssima" pesquisa demonstra que 95% dos Católicos é a favor da pesquisa com os embriões. Só que ele esconde muito capiciosamente, porque não é "mau e diabólico", é que as feministas abortistas demoníacas conhecidas por "Católicas pelo Direito de Decidir" são um grupo condenado pela Igreja, notável justamente por sua militância anti-Católica. Mas não é conveniente a André Petry lembrar isso, pois levaria o argumento dele de que os Católicos aprovam tal pesquisa por água abaixo. Também é necessário lembrar a ele que opiniões são irrelevantes quanto ao fato objetivo.
Como é próprio dos crentes mais inflexíveis, Fonteles sonha com um país laico ajoelhado diante de suas convicções religiosas. Mas, para o bem da ciência, do progresso e da vida, há que torcer para que o STF mantenha a Lei de Biossegurança em pé. Ou, para ficar na língua que o procurador entende, Deus queira que o STF seja iluminado nesta semana.
Esse tipo de papo com o qual ele encerra o artigo faz aflorar em mim meus instintos mais agressivos. É claramente uma chacota para desestabilizar o lado dos religiosos, como se eles fossem proibidos de ter opiniões baseadas em religião.
Toda noite, André Petry deve sonhar com a utopia da razão: aquela mesma utopia que tingiu Paris de vermelho, que inspirou os comunistas com o Estado Ateu e que trouxe mais mortes em 40 anos do que os quinhentos anos anteriores juntos.
Cada um com seu sonho...
Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.