segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Um ensaio de uma cega

Saudações queridos leitores!

Raras vezes vi um texto com ataques tão francos e escancarados contra a Igreja e contra a população católica do Brasil. Não, não me incomodo tanto assim com textos que ataquem a Igreja, por menos que eu concorde. Mas eu me incomodo muito com textos que atacam a Igreja com base em mentiras, em manipulação de informações e em calúnias.

Pois o texto de Ruth de Aquino (essa mulher não honra o sobrenome que tem) está cheio de tais manifestações. E é para curar sua cegueira que eu comento seu texto logo abaixo, em vermelho, permeado com intervenções minhas. A fonte está no site da Revista Época.

Um ensaio sobre a nossa cegueira
Ruth de Aquino

é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

Num país em que o crucifixo decora os salões principais do Supremo Tribunal Federal e do Congresso, defender Estado laico soa heresia a uma imensa legião de brasileiros católicos. Não é difícil entender a fúria de religiosos quando se mexe com assuntos e símbolos sagrados e intocáveis. Aborto de fetos sem cérebro, uso de células-tronco, homossexualidade ou um terço na mão de uma mulher seminua, não importa. Tudo isso é, para os militantes da fé, um ultraje a Deus.

O Estado é laico. E eu agradeço a Deus por isso. Pois é graças a esse laicismo que a Igreja é reconhecida como uma organização que tem uma participação na vida das pessoas e é um integrante legítimo do Estado, que nada mais faz do que se manifestar de maneira democrática, apoiada pela Constituição. Se os brasileiros se ofendem com atitudes que vão contra as suas crenças, nada mais fazem do que exercer seu direito constitucional de se manifestar contra algo que lhes soou ofensivo. Querer vedar esse direito é ir contra a democracia e impor a sua própria ideologia contra aqueles que se acusa de fazer o mesmo.

O aborto de fetos anencéfalos é permitido em 41 países, entre eles o Irã. No Brasil, ainda não, por ser pecado. Está provado que a anencefalia é letal em 100% dos casos. Também está provado que Marcela de Jesus, que sobreviveu um ano e oito meses após o parto, tinha outro tipo de malformação do cérebro, não anencefalia. Mas os religiosos radicais não conseguem enxergar. Dizem que o anencéfalo é apenas deficiente. Eles querem obrigar uma mulher a ter um bebê que não sobreviverá. Porque, para eles, somos apenas instrumentos de Deus. O dogma rejeita argumentos científicos ou de liberdade individual.

Quer dizer então que por permitir o assassinato de anencéfalos somos menos liberais que o Irã? Quero ver o que essa moça faria se vivesse sob o regime dos aiatolás. Se ela acha que as coisas são rígidas demais por aqui, que vá para lá viver, ora bolas. Mas ela que tome cuidado, pois ela pode ser condenada à morte por apedrejamento se pisar na bola por lá. Afinal, os liberais são assim.

Ela também ataca o caso da pequena Marcela, alegando que não era anencefalia. Então eu pergunto: por que todo mundo começa a questionar a anencefalia da Marcela só agora na época do julgamento? Se ela nunca foi anencéfala, por que eles ficaram quietos por 20 meses? A cegueira dessa jornalista não é física, mas sim ideológica. Ela mente descaradamente ao afirmar que a partir de uma visão religosa somos apenas instrumentos de Deus. Nunca vi religião séria nenhuma afirmar isso. A filiação divina está presente em maior ou menor grau em todas as denominações cristãs. Pelo que vi nas audiências do STF, tanto no caso das CTEs quanto dos anencéfalos, não faltaram argumentos científicos para lutar pela preservação da vida dos anencéfalos.

Colocar todos os contrários ao aborto de anencéfalos na mesma sacola que os religiosos é desonestidade das mais grosseiras. Existem muitas outras pessoas das mais diversas religiões e muitos sem religião alguma que também defendem que ninguém é mais passível de ser assassinado do que o outro.

O tom dramático dos que chamam de “assassinato” o aborto de anencéfalos é semelhante à ira com o terço exibido pela atriz Carol Castro, em foto com corpete rendado na revista Playboy. Para os adultos que compram a revista, a nudez comercial e escancarada não é profana. A foto de Carol com o terço é a mais bem-comportada do ensaio. Mostra apenas os seios pequenos. Ela representa ali, com os olhos baixos, a viúva Dona Flor, personagem de Jorge Amado. O blog da atriz se entupiu de mensagens ofensivas. Ela correu para pedir desculpas uma, duas, dezenas de vezes. “Virou bola-de-neve. Imagina se eu vou querer problema com a Igreja”, disse Carol, xingada não por expor seus atributos morenos, mas pelo terço. Os fiéis ofendidos certamente nem viram a imagem. A blasfêmia foi parar no colo de um juiz da 29ª Vara Cível do Rio de Janeiro, que proibiu novas tiragens da revista com a foto. O caso remete mais à fantasia que à realidade.

Aborto é morte. É sempre morte. Ao final do processo, sempre acaba com algum morto. Simples assim. Agora quanto à blasfêmia com o terço, essa jornalista tem a pachorra de se indignar com a nossa indignação! Agora, nós, Católicos, temos que assistir calados a blasfêmias cometidas contra nossos símbolos e objetos de culto! Não podemos mais nos indignar! Isso é um delírio do mais puro autoritarismo, que visa calar qualquer voz discordante.

É repugnante ver o quão hipócrita essa mulher consegue ser, ao clamar pelo laicismo e pela liberdade de escolha das pessoas, ao mesmo tempo que quer tirar dos Católicos não o direito de reclamar, mas o direito de considerar a blasfêmia como algo ruim! Mais que mandatária leiga, ela quer agora legislar na Igreja, determinando o que pode e o que não pode ser considerado profano. É o cúmulo do autoritarismo. É nojento.

Nos anos 80, Madonna abusou de crucifixos, cantando “Like a Virgin”. Há quatro anos, o jogador inglês David Beckham apareceu na capa da Vanity Fair com o torso nu e um rosário.

E nem por isso deixaram de ser criticados em suas épocas. Blasfêmias anteriores não justificam a blasfêmia atual.

No Brasil, ninguém quer problema com a Igreja. Nem o presidente da República. É briga impopular. Lula chegou a defender timidamente a descriminalização do aborto, mas se calou diante da reação. É como se, ao discordar da Igreja, você fosse amaldiçoado, excomungado e jogado à fogueira. No século XXI. Nem a pedofilia de padres escandaliza tanto os religiosos quanto a discussão aberta, franca, científica e jurídica de temas contemporâneos. Porque o poder não se disputa por baixo das batinas, mas junto às togas na alta corte. Compreende-se o desespero de quem teme derrotas num Estado secular, democrático e moderno. O mundo muda, a Terra é redonda, a ciência progride, as mulheres lutam por seus direitos de escolha, e os bispos não sabem se manterão o poder intacto.

Dona Ruth é uma encrenqueira. Quer quer problemas na vida? Se você quer, vai achar alguém que também queira e deixe os outros em paz. Se as pessoas não querem problemas com a Igreja, bom pra eles, vão ter menos com o que se preocupar. Agora dizer que quem discorda é excomungado e jogado à fogueira é uma meia-verdade. Tudo bem que dependendo da discordância a pessoa realmente é excomugada latae sententiae, mas já faz alguns séculos que ninguém é lançado à fogueira por causa disso. Mais uma vez, vemos uma argumentação totalmente eivada pela ideologia apelando para os tempos da Santa Inquisição, como se tal prática tivesse sido a pior coisa do mundo e como se a Igreja não tivesse combatido os abusos do Estado e de seus próprios filhos. Argumentação primária, ou melhor, ginasial.

Alegar que a Igreja teme a perda do poder em um Estado democrático e juntar a tal raciocínio a alegação de que a Terra é redonda é algo simplesmente abjeto. é a evocação de todos os preconceitos anti-religiosos em um só texto. Algo difícil de se conseguir fazer. É difícil de acreditar que leio um texto tão intolerante.

A Igreja é contra a camisinha em tempos de aids. O casamento entre um homem e uma mulher não pode ser dissolvido. O ministro da Saúde de Lula, José Temporão, posou com um grupo de transexuais para anunciar cirurgia de sexo gratuita. Como andará a reputação de Temporão no reino dos céus?

E daí que a Igreja seja contrária ao uso de preservativos e apóie a indissolubilidade do casamento? É crime ter opinião contrária nesse país? Que eu saiba, ainda não vivemos na ditadura da hegemonia de opinião. E quanto ao Ministro da Doença,ops, Saúde, que não consegue fazer os hospitais funcionar mas acha dinheiro para criar máquinas de preservativos e cirurgias de mudança de sexo enquanto as pessoas morrem de dengue e perecem nos corredores dos hospitais, o a reputação dele no Reino dos Céus é irrelevante para nós (mas não para ele, hehe).

Quando a religião se impõe ao corpo de leis de um Estado laico, não ateu, fica complicado, para um pai ou uma mãe, recusar a doutrinação dos filhos no currículo de escolas públicas. Nossa reportagem de capa discute o que fazer diante da lei de 1997 que instituiu o ensino religioso obrigatório nas escolas. Como respeitar os pais ateus e agnósticos, e até mesmo as várias religiões, quando crianças são orientadas a rezar o Pai-Nosso antes da aula?

A educação religiosa é uma disciplina opcional em sala de aula. Quem não quer participar, tem toda a liberdade que a Constituição garante de se levantar e de sair da sala de aula. Não existe desrespeito algum em se oferecer uma opção, desrespeito haveria se as opções fossem ignoradas, sendo que fazem parte de nossa sociedade.

Em Ensaio sobre a Cegueira, romance do português José Saramago, adaptado agora para o cinema sob a direção de Fernando Meirelles, uma cegueira branca e leitosa começa a tomar todos os habitantes de uma cidade. Só uma mulher continua a enxergar e vê o que não quer. Cegos são sempre os outros. Os que olham mas vêem apenas seu reflexo.

E aqui termino as minhas considerações sobre esse ensaio que a autora quis que fosse sobre a nossa cegueira, mas acabou sendo um ensaio de uma cega. Cega pela ideologia e contaminada pelo ódio mais irracional contra as opiniões que discordam de suas convicções.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sou leitor da Ruth na 'Época', que recebo, mas não gosto. Mas respeito as opiniões dela. O problema é a ambiguidade que permeia o pensamento universitário no país.´É o 'sanduíche' de esquerda c/ classe média burguesa, que causa indigestão por falta de coerência. São contra a pena de morte para bandidos e favor da mesma para quem está nascendo. Nós, cristãos, deveríamos botar essa pauta na mesa. Deus não é a questão, mas sim a ética. E tbm é bom que se chame judeus,islâmicos e outros convidando-os a botarem o'x' dejes na reta.