quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Um texto um tanto surpreendente de André Petry

Saudações queridos leitores!

Como era de se esperar, a coluna do André Petry na revista Veja dessa semana aborda o caso do aborto de anencéfalos. Para minha surpresa, a coluna veio em um tom muito mais ameno que o o de costume quando ele escreve sobre assuntos em que a Igreja Católica está envolvida. Acompanhem a coluna abaixo, permeada com meus comentários.

De olho no ardil

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal, que tem dado mostras de ser o poder mais conectado com a realidade dos brasileiros comuns, fará outra de suas audiências públicas. Uma delas discutiu as pesquisas com células-tronco embrionárias, finalmente aprovadas. Agora, o debate será sobre o direito de interromper a gravidez de fetos sem cérebro – que não sobrevivem fora do útero mais do que algumas horas ou dias. É uma anomalia incurável, cujo desfecho inevitável é a morte. É uma crueldade ímpar obrigar uma mulher a carregar por nove meses no útero um feto que não sobreviverá fora dele. Ainda assim, há quem defenda que a mulher deve ser forçada – por lei! – a amargar esse calvário, preparando-se para, ao fim de nove meses, em vez de celebrar a vida, dar à luz a morte.

Em primeiro lugar, não acho que o STF esteja assim tão conectado com a realidade dos brasileiros comuns. A coisa por lá está muito contaminada por lobbies dos mais diversos mas só a Igreja Católica e as organizações que estão de seu lado são criticadas quanto tentam influenciar ou meramente manifestar sua opinião. Foi assim no caso das CTEs, quando eu nunca pensei que fosse ver um julgamento permeado de tanto reacionarismo por parte daqueles que se arvoram os mais tolerantes. André Petry comete nesse primeiro parágrafo o mesmo erro que muitas pessoas cometem: o de relativizar o direito à vida. Mas pela primeira vez em muito tempo, sinto que ele está escrevendo um texto orientado mais pelo bom senso do que por ideologia.

Na terça-feira, o Supremo ouvirá os defensores dessa posição: a CNBB dos católicos, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família. Há argumentos sólidos e respeitáveis para ser contra o aborto de fetos sem cérebro, mas também há velhacarias e engodos. Para um deles, é preciso que a platéia esteja especialmente atenta porque são grandes as chances de que apareça na audiência pública do Supremo: chama-se Marcela de Jesus Galante Ferreira. É o nome da menina que viveu um ano, oito meses e doze dias em Patrocínio Paulista, mesmo tendo nascido, dizia-se, sem cérebro. Marcela morreu no último dia 1º de agosto, de pneumonia. Por ter sobrevivido tanto tempo, a pequena Marcela foi tratada como um milagre divino. Chegou a virar símbolo de passeata contra o aborto, que reuniu 5.000 fiéis católicos, espíritas e evangélicos em São Paulo.

O fato de Petry reconhecer que há argumentos respeitáveis contra o aborto de anencéfalos já é um passo enorme. É o tipo de coisa que me surpreende vindo dele. Mas para não perder a tradição, ele se engana redondamente ao considerar o caso de Marcela como um engodo. É um exemplo chave para toda essa situação. Os prognósticos médicos não são isentos de erro e colocar uma vida inocente, por mais breve que seja, apostando em algo que não é o mais preciso possível é fazer roleta russa na cabeça desses bebês. Ademais, uma coisa que eu ainda não consegui entender é que conforto traz o aborto de um bebê, mesmo que ele sofra de um problema que abreviará em muito a sua vida. Por que não deixar a vida seguir seu curso natural? O que faz uma mulher querer abreviar ainda mais a brevíssima vida que esse inocente terá? Em minha opinião, não como Católico, mas como humano, cabe a nós darmos o melhor para esses inocentes que jamais desfrutarão do que nós passamos. Se estou escrevendo aqui nesse momento ou se alguma defensora do aborto faz uma passeata clamando pelo derramamento do sangue inocente, é porque nossas mães optaram por não fazer justamente o que os defensores do aborto querem.

Era comovente acompanhar o carinho e o respeito com que a mãe de Marcela a tratou em vida. Cacilda, lavradora do interior paulista, parou de trabalhar para cuidar da filha, agia como se ela fosse igual aos outros bebês e tirava fotos da criança usando um simples gorro, para não expor a parte superior da cabeça, deformada pela ausência do cérebro. Em matéria da repórter Adriana Dias Lopes, publicada por VEJA em agosto do ano passado, Cacilda afirmou: "Minha filha é muito carinhosa. As pessoas ficam tão encantadas com ela que não ligam para o formato de sua cabecinha".

Aqui, ele reconhece o quão comovente foi a sobrevida, depois a vida da pequena Marcela. André Petry sabe que existe o risco de outras crianças como Marcela serem indiscriminadamente descartadas e reconhece que isso é errado. Estou gratamente surpreso.

Acontece que tomar o exemplo de Marcela, o milagre divino, o símbolo antiaborto, para proibir a interrupção da gravidez de fetos sem cérebro é exploração desonesta da tragédia alheia. A pediatra Márcia Barcellos, que cuidou de Marcela, examinando ressonâncias magnéticas de alta definição, concluiu que a menina sobrevivia porque não era um bebê sem cérebro. Ela tinha o mesencéfalo, parte intermediária do cérebro, e outras proto-estruturas que lhe permitiram tamanha sobrevida. Na sessão do Supremo, sempre pode aparecer alguém – bem-intencionado, lógico – dizendo que o aborto de feto sem cérebro tem de ser proibido porque ainda pode haver centenas de Marcelas vivendo anos a fio.

Mas Petry é Petry. Ele erra ao classificar o caso de Marcela como tragédia alheia. Tudo bem que era alheia, mas longe de ser uma tragédia. A pequenina Marcela, com seus breves 20 meses de vida ensinou muito mais sobre a força de viver, sobre superar barreiras, sobre alcançar o que todos dizem ser impossível do que qualquer atleta olímpico que eu já vi. Marcela fez escola. Muitos adultos não têm a força de vontade de viver que ela teve.

Apesar de André Petry insistir na oportuna teoria de que Marcela não era anencéfala, um dado interessantíssimo pode ser visto nesse mesmo parágrafo. Ele diz que a pediatra chegou a essa conclusão (de que Marcela não era anencéfala no sentido mais preciso do termo) após analisar ressonâncias magnéticas de alta definição. Agora eu pergunto: quantas gestantes têm acesso a uma RM de alta definição durante a gestação? Se o caso de Marcela só foi detectado com esse exame, ela provavelmente teria sido abortada em vão e seus 20 meses de vida e lição para o mundo nunca teriam sido aproveitados.

Se você ouvir isso, saiba: é um ardil.

Não há nenhum ardil nessa argumentação e sua própria coluna o desmente. Mesmo que você tivesse razão, não existe esse ardil de forma alguma, pois nenhum direito deve suplantar o direito à vida alheia. A vida humana não tem preço.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Um comentário:

Dani disse...

Lindo esse trabalho de evangelização! Parabéns!!!