sábado, 5 de abril de 2008

Humor ou Heresia? - Matéria do Jornal de Brasília

Saudações queridos leitores!

O espetáculo blasfemo "Nunca fui Santo" continua recebendo críticas de todos os lados. Fiquem com uma matéria publicada no Jornal de Brasília.

Humor ou Heresia?

Peça Nunca Fui Santo! incomoda católicos

Mara Puljiz

Um padre segurando uma camisinha no lugar da hóstia consagrada. É essa a imagem do folder de divulgação da peça teatral Nunca Fui Santo!, dirigida por Sérgio Sartório e escrita pelo ator e jornalista Alexandre Ribondi. A peça entrou em cartaz no Teatro Goldoni da Casa D'Itália (208/209 Sul) no último dia 13, durante a Semana Santa e sua temporada se encerra no próximo domingo. Desde então, segmentos da Igreja Católica vem demonstrando indignação com o conteúdo apresentado ao público. A Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família resolveu processar todos os organizadores do evento, inclusive o fotógrafo que fez o retrato do ator segurando a hóstia, considerada sagrada para os católicos.

A associação entrou com uma liminar para retirar a peça de cartaz e impedir sua apresentação em outros estados. Segundo o advogado católico e secretário da Associação Pró-Vida e Pró-Familia, Paulo Fernando da Costa, a peça seria um flagrante desrespeito à liberdade religiosa. O crime está tipificado no artigo 208 do Código Penal. "Somos favoráveis ao teatro, desde que seja de forma sadia", explica Paulo Fernando, que assistiu à peça e se sentiu lesado.

Vinho ralo

No espetáculo, Ribondi encarna Padre Nosso, um sacerdote pervertido e que mantém relações sexuais com uma freira, interpretada pelo ator André Reis, 32 anos. Além disso, Padre Nosso critica o vinho da igreja como sendo "ralo", mas bebe dele até se embriagar. O personagem compara ainda a hóstia – símbolo do corpo de Cristo – a uma minipizza e sugere que ela seja confeccionada em diversos sabores, como tapioca, coco ralado e leite condensado. "Hóstia é feita de farinha de trigo, logo o corpo de Cristo contém glúten", diz Padre Nosso durante a encenação.

Embora seja evangélico, o deputado Henrique Afonso Soares (PT-AC) é outro que repudiou a peça teatral. "Nós percebemos uma verdadeira agressão ao culto de Deus", alega. "Eles estão escarnecendo a fé cristã. Vivemos em uma sociedade democrática e queremos ter os nossos direitos respeitados", resume. Em boicote à peça e também aos seus patrocinadores, diversos e-mails estão sendo repassados via internet.

Em protesto, católicos de Brasília e, inclusive, uma promotora de Justiça também registraram ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul). Segundo a delegada-titular Martha Vargas, os organizadores da peça também registraram ocorrência, alegando direito à liberdade de expressão. Ambas as partes serão convocadas, na próxima semana, para prestar depoimento. O relatório do inquérito será encaminhado à Justiça.

Assuntos delicados

De acordo com Alexandre Ribondi, a peça é puro entretenimento. "É uma comédia de um assunto que eu conheço, que é a vida no seminário. O objetivo é divertir e advertir", explica. Segundo o ator, que desenvolve seu trabalho em Brasília desde 1970 e afirma ser católico praticante, a intenção não é manchar o nome da Igreja, mas abordar assuntos até então pouco divulgados na mídia religiosa, como a pedofilia no ambiente clerical, o celibato, a homossexualidade e o uso da camisinha.

Ator profissional há sete anos, André Reis admite que a peça tem repercutido de modo inesperado, sobretudo por suas críticas ao Vaticano. "A gente quer mostrar para as pessoas um lado que a Igreja não mostra e falar sobre isso de uma forma engraçada e que a platéia entenda", afirma o ator, que garante ser cristão. "Eu sou católico apostólico romano carismático mariano. Eu sou católico nesse nível. Jamais faria uma peça que fosse manchar o nome de Jesus", defende.
Ainda assim, André Reis diz não concordar com certas partes da peça e do material de divulgação, como a imagem de um padre segurando uma camisinha no lugar da hóstia sagrada. "Eu não concordo com muita coisa que acontece nessa peça e essa é uma delas. Mas eu sou profissional, sou ator e tenho que pagar minhas contas e sustentar minha família", explica.

Performance sob protestos

Na semana passada, uma dezena de pessoas esteve na porta do Teatro Goldoni para protestar contra o espetáculo. Segundo Alexandre Ribondi, alguns chegaram a agredir verbalmente os artistas e ameaçaram jogar uma bomba no estabelecimento por causa da peça. "Em qualquer setor existem os fanáticos, os histéricos, os autoritários e os ridículos. Eles são patéticos e não representam perigo. Eles jamais explodirão uma bomba aqui, apesar de terem nos ameaçado", alfineta.

Segundo o advogado e secretário da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, Paulo Fernando da Costa, a informação é mentirosa. "Nós estivemos lá para rezar. O que eles querem é aparecer e se fazer de vítimas", afirma. A peça Nunca Fui Santo! permanece em cartaz até amanhã, mas Paulo Fernando pretende conseguir uma liminar para que ela não seja divulgada em outros estados. Para o diretor da montagem, Sérgio Sartório, tudo seria uma forma de intimidação. "Isso é mais uma espécie de terrorismo", acredita.

Liberdade de expressão

A média de público no teatro Goldoni tem sido de cem pessoas por dia. A psicóloga Fabiana Cassimiro Santos, 24 anos, reclama da postura de alguns católicos. "É uma manifestação cultural. O que eles falam não é nada além do que as pessoas já sabem. Vejo como uma forma de diversão e não como uma manifestação pejorativa. Quem é católico de verdade não vai deixar de ser por causa de uma peça", acredita. "Relaxem. Deus tem muito bom humor. A fé é mais forte do que uma palhaçada", finaliza Ribondi.

NOSSA OPINIÃO

A ribalta para um esquecido

A imprensa não deve abraçar a fé em seus conteúdos. Seguimos um código de atuação laico, o que nos permite registrar polêmicas e notícias envolvendo até as religiões, seus líderes e praticantes. Foi graças a esta linha de conduta que o público mundial tomou conhecimento dos casos de religiosos que não honram a nobre tarefa que possuem.

Por seguir esta independência religiosa, a reportagem do Jornal de Brasília assistiu à "peça" Nunca fui Santo!, encenada pelo ator e jornalista Alexandre Ribondi. Isso nos permite comentar, com isenção, aspectos da encenação. Ribondi faz troça sobre coisa séria – e isso não tem a menor graça. A crença alheia deve ser respeitada, assim como o direito de ser ateu. O pior é quando a piada beira o ridículo – é o que ocorre na "peça", pela gratuidade com que o desrespeito à religião alheia é encenado.

Não há graça alguma em vilipendiar símbolos de qualquer religião, sejam eles católicos, protestantes, indus, budistas, judaicos ou muçulmanos. A despeito de fazer sucesso e ressurgir das cinzas do anonimato, Alexandre Ribondi – que até já assinou coluna no Jornal de Brasília, numa época em que tinha graça e sensibilidade – preferiu o caminho da pilhéria religiosa, trazendo neste desvairio seus patrocinadores.

Infelizmente, conseguiu seu intento. Irritados, católicos optaram pela via policial para protestar. Vão acabar levando público para a "peça", seja por curiosidade, seja por um suposto apoio "à liberdade de expressão". Melhor seria condenar Ribondi ao ostracismo que ele vivia. Por causa da polêmica, os holofotes são dele. Propaganda gratuita é o que há de melhor para quem precisa se levantar.

Melhor fariam se o ignorassem ou se organizassem um boicote organizado, deixando de adquirir produtos dos patrocinadores e comprando a lotação do teatro, mas sem que ninguém fosse assistir ao "espetáculo". A atitude magnânime de alimentar com o pão nosso de cada dia o homem faminto de sucesso talvez o fizesse refletir sobre a insensatez que produziu sob o rótulo inadequado de "arte".

Mara Puljiz

Fonte: Jornal de Brasília , página 6

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Nenhum comentário: