segunda-feira, 10 de março de 2008

Sagrada Liturgia deve ser a oração pessoal mais profunda

Saudações queridos leitores!

A Sagrada Liturgia é essencial na vida espiritual. Hoje em dia alguns sacerdotes a maltratam muito. Dom João Evangelista Kovas não é um desses. Para quem já teve oportunidade de assistir uma Santa Missa celebrada por ele, sabe que ele é um dos sacerdotes mais zelosos que há. Fiquem com sua entrevista para ZENIT (fonte aqui).

Sagrada Liturgia deve ser a oração pessoal mais profunda

Entrevista com D. João Evangelista Kovas, prior do Mosteiro de São Bento de São Paulo

Por Alexandre Ribeiro

SÃO PAULO, segunda-feira, 10 de março de 2008 (ZENIT.org).- A Sagrada Liturgia deve ser a oração pessoal mais profunda e a sua solenidade depende em grande parte da sobriedade com que é celebrada, afirma o prior do Mosteiro de São Bento da cidade de São Paulo (Brasil).

Nesta entrevista a Zenit, Dom João Evangelista Kovas fala sobre a espiritualidade litúrgica dos beneditinos, a beleza da liturgia e o esmero que se deve ter com ela.

--Pode-se falar de uma Liturgia beneditina ou de um modo específico dos beneditinos celebrarem a Sagrada Liturgia?

--D. João Evangelista Kovas: A rigor, não falamos de uma Liturgia beneditina, nem de um modo específico dos beneditinos celebrarem a Liturgia. O melhor seria falar de uma espiritualidade litúrgica.

Todos concordamos a respeito da importância de se saber rezar. Pensamos habitualmente em uma pessoa que está rezando sozinha, diante do Sacrário ou mesmo em um recinto fechado. Dificilmente imaginamos uma pessoa que está rezando em comunidade e celebrando a Sagrada Liturgia. São Bento justamente pensa o contrário. Acompanhando o grande mote monástico do “orar sem cessar”, ele oferece ao monge em sua Regra a imagem da oração coral, em comunidade e reunindo-se várias vezes ao dia. Com efeito, o beneditino é aquele que vive a espiritualidade litúrgica, aprende a rezá-la, fazer da oração comum da Igreja a sua oração mais pessoal e profunda possível.

--Que é o Ofício Divino? Para os beneditinos, ele tem algumas especificidades?

--D. João Evangelista Kovas: O “Ofício Divino” é como São Bento chama as orações litúrgicas em geral e mais especificamente a “Liturgia das Horas”, bastante difundida na vida da Igreja, antes mesmo de São Bento. O interessante é que São Bento também fala do objetivo do mosteiro como o a “Escola do Serviço do Senhor”, querendo dizer com isso que o monge é chamado a descobrir o mistério de Deus pela perseverança no mosteiro e tudo o que isso significa. O conjunto da vida do monge, seu trabalho, seus estudos, a vivência comunitária, a oração, está voltado para o conhecimento da verdade e do louvor a Deus. Esse conhecimento da verdade vai além da simples aplicação às leituras, ele é resultado de uma vida de profunda amizade com o Senhor, no sentido sapiencial de que Deus revela seus mistérios a seus amigos.

A Liturgia ou o “Ofício Divino” é o serviço do Senhor por excelência. O Catecismo da Igreja Católica explica muito bem esse sentido, com simplicidade e exatidão, citando justamente a Regra de São Bento de que “nada se anteponha ao Ofício Divino” (cf. CIC Nº 347). Na hora do Ofício, o monge deve deixar todos os afazeres que está fazendo e dirigir-se sem demora ao coro, para unir-se a seus irmãos em oração. Com isso, é cumprida a ordem correta das preocupações humanas, segundo a qual o homem não vive apenas para seu trabalho. Ele vive também de toda palavra que sai da boca de Deus e do louvor divino, ao qual é especialmente chamado dentre todas as criaturas.

Normalmente, o Ofício Divino é celebrado nos mosteiros beneditinos, de modo que o Saltério é rezado por inteiro em duas ou uma semana. A presença do Canto Gregoriano também é bastante marcante na recitação do Ofício, como o canto coral por excelência.

--Qual tem sido a influência dos beneditinos na história da Liturgia?

--D. João Evangelista Kovas: A influência dos beneditinos é bastante ampla na história da Igreja. Chegou-se a falar de uma Igreja monástica, por causa das intensas atividades dos monges em uma época que a civilização antiga estava em franca decadência. Essas influências marcaram mesmo o início de uma nova civilização, em todos os seus aspectos: do mundo do trabalho, da cultura e da vivência da fé.

A liturgia celebrada nos mosteiros beneditinos sempre foi a liturgia da Igreja. Contudo, dada a importância dos mosteiros para a vida da Igreja, eles se tornaram verdadeiros celeiros da vida litúrgica, mantendo o legado litúrgico antigo e transformando-o aos poucos ao longo dos séculos. A contribuição mais recente normalmente é lembrada como o início do Movimento Litúrgico.

A Igreja católica saía de uma grande crise, com duras perseguições, de fins do século XVIII a meados do XIX, quando tem início uma série de iniciativas de recuperação da vida eclesial, que se chamou Restauração Católica. Uma dessas iniciativas diz respeito à Liturgia, encabeçada pelo Movimento Litúrgico. Esse Movimento foi iniciado pelos beneditinos. Em especial, destacam-se os estudos eruditos do Abade beneditino francês Dom Prosper Guéranger OSB, sobre o Canto Gregoriano, e o trabalho de Abade beneditino alemão Dom Odo Casel OSB, sobre a liturgia como celebração do Mistério cristão. A necessidade restauradora foi especialmente sentida nos mosteiro, justamente pelo caráter indispensável da liturgia na vida beneditina. Logo em seguida, o Movimento toma proporções mundiais, influenciando largamente os trabalhos no Concílio Vaticano II, sobretudo o primeiro documento: Sacrosanctum Concilium.

--Com que atitudes e postura o clero e os fiéis podem demonstrar o seu amor pela Sagrada Liturgia?

--D. João Evangelista Kovas: Antes de tudo, deve-se fazer da Sagrada Liturgia a sua oração pessoal mais profunda, depois ter grande apreço pela liturgia tal como ela é apresentada pela Igreja. A solenidade da liturgia depende em grande parte da sobriedade com que é celebrada. A mudança de rito ou o acréscimo de elementos estranhos à liturgia comum cria um ambiente de surpresas e concorre com o significado presente nos textos bíblicos lidos.

Com isso, prejudica-se o clima de oração e a devida atenção à Palavra proclamada. Por isso, é preciso aprender a rezar a liturgia em sua forma simples. Aos poucos vamos adentrando o mistério que se revela, somente, quando aceitamos estar ali presentes, adorando a Deus com suas próprias palavras.

Cada comunidade cristã é sumamente beneficiada, quando aprende a rezar bem a liturgia e ensinar isso aos mais jovens. O espírito dos dias de hoje, de inquietação, pressa e destempero, não pode tomar lugar naquele espaço privilegiado, no qual nos encontramos com nosso Deus. Devemos nos deixar transportar pelo Espírito de Deus, que suavemente e com poder nos conduz à salvação.

Como faz falta sacerdotes com o Dom João Evangelista!

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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