domingo, 16 de março de 2008

Responsabilidade dos médicos na promoção da cultura da vida

Saudações queridos leitores!

Todos sabem que vivemos tempos difíceis, onde a cultura da morte nos é imposta de forma muito enérgica. O Brasil não é exceção, vide a discussão constante sobre o aborto e o julgamento sobre a possibilidade do assassinato de embriões para pesquisas. José María Simón Castellvi concedeu uma entrevista a ZENIT sobre o assunto, dividida em duas partes (que podem ser acessadas aqui e aqui). Fiquem com a íntegra das duas partes abaixo:

Responsabilidade dos médicos na promoção da cultura da vida

Fala José María Simón Castellvi, da Federação Internacional de Médicos Católicos

Por Inmaculada Álvarez

BARCELONA, sexta-feira, 14 de março de 2008 (ZENIT.org).- A Federação Internacional de Médicos Católicos (FIAMC) prepara um documento internacional sobre o uso de métodos anticoncepcionais que será publicado antes do verão europeu, provavelmente em Roma, por ocasião do 40º aniversário da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI. O atual presidente de FIAMC, o espanhol José María Simón Castellví, adiantou à Zenit alguns aspectos do conteúdo do documento, atualmente em fase de redação.

A FIAMC foi constituída em 1966 com a aprovação de seus estatutos por parte do 11º congresso Internacional de Médicos Católicos, celebrado em Manila, e por parte da Santa Sé. Contudo, o associacionismo de médicos católicos é muito anterior: a primeira associação de médicos católicos foi fundada na França em 1884 durante o pontificado de Leão XIII, seguida de outras em vários países da Europa.

Em 1924 se formou um Secretariado Internacional de Sociedades Nacionais de Médicos católicos, que organizou os primeiros encontros internacionais destas associações (o primeiro em Bruxelas em 1935), visando a estabelecer uma federação de alcance mundial. No 11º Congresso, realizado em Manila em 1966, os Estatutos oficiais e orientações da FIAMC foram adotados pela Assembléia Geral e aprovados pela Santa Sé. Atualmente conta entre seus membros associações dos cinco continentes.

–Com que propósito se elabora o documento e a quem está dirigido?

–José María Simón: O documento está dirigido aos médicos, católicos ou não, que compartilham os princípios éticos e antropológicos da cultura da vida. O palestrante é o professor suíço de Ginecologia e Obstetrícia Rudolf Ehmann, egrégio membro de nossa Federação, que agora mesmo está trabalhando em Camarões. Terá também contribuições de nosso comitê executivo e do assistente eclesiástico, Dom Maurízio Calipari.

A encíclica de Paulo VI é magistério, que só pode fazer o Papa ou os bispos em comunhão com ele; a respeito do nosso documento, deve considerar-se mais como uma «perícia qualificada». A própria encíclica, em um de seus parágrafos, dizia: «considerem os médicos e as demais equipes da saúde, como próprio dever profissional, dar conselhos e diretrizes aos esposos que os consultam». Somos conscientes, como profissionais, da dificuldade de promover esta doutrina, e depois de quarenta anos aceitamos o desafio.

O tema do documento é o anticoncepcional e a regulação da natalidade, porque não esquecemos que os meios aceitos pela Igreja, chamados «naturais» porque respeitam os ciclos naturais da mulher, não servem só para dar espaços entre um nascimento e outro, mas também para buscar os nascimentos. A encíclica, portanto, não deve ser vista desde o ponto de vista exclusivamente negativo, como rejeição da anticoncepção.

Por outro lado, o que a doutrina propõe é o natural, porque uma mulher fértil não é uma doente, portanto dar-lhe um fármaco não concorda muito com seu estado de saúde. Toma-se um remédio quando se tem um problema a ser corrigido, não quando se está sadio.

–Existe um pouco de confusão com os tipos de pílulas existentes: se são abortivas ou não, etc. Que juízo o senhor pode dar-nos como médico?

–José María Simón: Existem três tipos de pílula: a Ru-486, a do dia seguinte e a anticoncepcional. Sobre a primeira, o juízo está claro, trata-se de um combinado produzido para provocar uma morte, e nem sequer merece o nome de medicamento. A pílula do dia seguinte é um fármaco que, em 70% das vezes em que atua, o faz para eliminar um óvulo humano fecundado e, portanto, também é abortiva. A pílula anticoncepcional tem outra avaliação porque não produz a morte do embrião. A avaliação não é positiva, mas não tem a mesma gravidade moral que as anteriores.

Como médico, devo dizer que nenhum dos três tipos de pílula é inócuo para o organismo feminino, ao contrário. A Ru-486 pode chegar a produzir a morte; a pílula do dia seguinte tem também muitos efeitos colaterais. Também deve-se assinalar que o uso da pílula do dia seguinte contradiz o mito do «sexo seguro», porque a única coisa que impede é a gravidez, e não o contágio das 26 doenças sexualmente transmissíveis conhecidas até agora.

Com relação à pílula anticoncepcional, o que produz é uma alteração hormonal para evitar a ovulação, e isso a longo prazo pode estar associado a fenômenos de trombose, hipertensão ou depressões.

De qualquer forma, o juízo moral negativo não se remete aos efeitos colaterais, porque se amanhã se desenhar uma pílula que não os tivesse, o juízo continuará sendo negativo. Eu costumo dizer que um adultério de pensamento não tem efeitos materiais, mas não por isso deixa de ser ruim.

O documento que estamos preparando, e que estamos fazendo com muito carinho, enfrenta muitas destas questões, porque entendemos que a responsabilidade não recai só sobre nossos pastores: sem a opinião qualificada dos médicos católicos, a questão da defesa da vida ficaria um pouco paralisada. Na gravidez e no parto, a figura do médico é necessária, somos um elemento-chave, e não só o ginecologista, também o médico de família, ao que muitas vezes se pede orientação.

–Que responsabilidade têm os médicos na extensão da «mentalidade contrária à vida» que triunfa atualmente no Ocidente?

–José María Simón: Somos evidentemente uma peça-chave. Também nós estamos às vezes manipulados pelo mundo do dinheiro, pela indústria farmacêutica que muitas vezes impulsiona o médico a práticas que não são necessárias.

Em todo caso, o médico é um elemento importante, porque tem um alto reconhecimento, tanto dentro como fora da Igreja. No caso da Humanae Vitae, a pouca aceitação que teve esta doutrina nos permite agora propor os pontos de vista contidos nela sem que seja interpretada como uma imposição, desde uma boa práxis médica e uma antropologia saudável.

De qualquer forma, no Ocidente existia, dentro da profissão médica, uma transmissão de valores éticos que não se realizava nas universidades, mas fundamentalmente na relação professor-aluno: aprendia-se se usar na profissão fazendo estágio em um serviço médico às ordens de um facultativo mais idoso, e lá se exercitava na prática, nos gestos, muitos valores, como o trato respeitoso do paciente, o valor da vida enferma, etc.

Contudo, desde a aparição das matérias de bioética, esta aprendizagem pessoal está-se perdendo, e foi invadida pelas ideologias. Então, dependendo de que faculdade se trate, ensinam umas ideologias ou outras. Infelizmente, um estudante ou recém-formado hoje, como mostram as estatísticas, não tem as idéias éticas claras, e é mais influenciável.

A Humanae Vitae foi muito criticada no momento de sua publicação, inclusive por alguns episcopados, ainda que praticamente todos a tenham aceitado logo. Quais foram os aspectos que mais rejeição provocou entre os próprios católicos?

–José María Simón: Quando se tem um problema (ou crê que o tem) e crê que não deve ter mais filhos, o pessoal da saúde nesse momento tem de dar uma resposta antropologicamente correta. Nesse momento, a pílula anticoncepcional parecia uma solução rápida, barata e direta, que não propunha os problemas éticos do aborto. Isto, unido à pressão da indústria farmacêutica, fez que se esquecessem outros meios.

A própria associação de médicos católicos dos Estados Unidos sofreu a esse respeito uma crise interna importante pelo apoio à pílula. Hoje, contudo, sua presidenta, Kathleen M. Raviele, é uma médica especialista em métodos naturais de regulação da fertilidade. As coisas foram mudando, mas agora, depois de quarenta anos, precisamos de um novo impulso.

Creio que neste tempo os médicos católicos não fizemos o que tínhamos de fazer. Muitas vezes não é só questão dos sacerdotes ou dar conselhos aos esposos em questões íntimas. Em nossas associações somos muitos os que vemos o problema, e queremos enfrentar nossa responsabilidade.

O que é que produziu essa mudança de postura com respeito à pílula?

–José María Simón: A volta ao respeito da natureza. Por exemplo, não sei se você recorda, quando eu era pequeno estava muito na moda a rejeição da lactação materna e a utilização massiva dos leites artificiais para alimentar os bebês. Isso se via como um avanço, ao contrário, agora é unânime o apoio à lactação materna. Esse industrialismo que parece que resolve tantas coisas, no fundo não é a solução.

Pois com a regulação da fertilidade acontece o mesmo: se a mulher tem dias férteis e outros inférteis, que permitem regular os nascimentos de forma natural, para que utilizar um método artificial que não respeita a natureza? Também a experiência mostra que os métodos naturais funcionam muito bem. Talvez existe o inconveniente de que deve-se aprendê-lo bem, etc. Mas a mulher que toma a pílula tem de fazer análises regulares, tem de fazer controles... tampouco é um método fácil.

Talvez estes métodos, que são apoiados nos ciclos da mulher e portanto são gratuitos, às vezes não são valorizados. Logo há mulheres com problemas, ciclos irregulares, patologias. Os métodos estão precisamente para isso, para orientar.

Crê que os métodos naturais deveriam ser ensinados nas Faculdades de Medicina, pelo menos naquelas que se dizem católicas?

–José María Smión: Sem dúvida. Também na Humanae Vitae, Paulo VI passava esta responsabilidade aos médicos. Talvez deveria figurar, não tanto como uma matéria em si, mas como um anexo importante da matéria de Obstetrícia.

Em todo caso, o nó do assunto, como propunha a Humanae Vitae, não é tanto o método anticoncepcional em si mas o valorizar a maternidade como um bem...

–José María Simón: Efetivamente, Paulo VI falava de «razões graves», que é preciso valorizar os esposos, que os filhos são um bem. Hoje, contudo, alguns esposos que querem ter os filhos que Deus lhes dê sofrem um preconceito grande, por parte muitas vezes dos próprios agentes de saúde. Há especialidades nas quais é melhor ir hoje ao profissional católico para evitar esse preconceito, por exemplo, no caso dos ginecologistas ou inclusive dos psicólogos e psiquiatras. E o problema aumenta porque não há muitas ginecologistas que sigam a doutrina da Igreja.

Nós estamos preparando atualmente um congresso de ginecologistas católicos que vai ser celebrado em Roma, e constatamos este problema. Muitas mulheres católicas não podem ir a ginecologistas que respeitem suas crenças: portanto, existe um mobbing para a maternidade, que muitas vezes não é direto mas existe: o gesto de uma parteira, a atitude de um médico... e não é a exceção, mas, infelizmente, a regra geral.

Por último, do conteúdo deste documento que a Fiamc prepara, o que poderá avançar como mais novo?

–José María Simón: Sem dúvidas, a assunção de suas responsabilidades por parte do médico católico. É uma responsabilidade da qual não podemos esquivar, nem sequer formalmente. Temos um problema, e nós somos uma peça chave nele, e portanto temos de enfrentá-lo.

Que Deus nos livre da maldição do aborto!

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Nenhum comentário: