quinta-feira, 27 de março de 2008

O voto assombroso de Ayres Britto

Saudações queridos leitores!

As células tronco embrionárias estão fora dos holofotes por enquanto, mas o processo continua correndo. Essa pausa se deve ao pedido de vistas do Ministro Direito.

Fiquem com dois artigos excelentes sobre o assunto. O primeiro aqui e o segundo abaixo.

O voto assombroso de Ayres Britto


Jaime Ferreira Lopes e Hermes Rodrigues Nery

Folha de São Paulo, 21 de março de 2008

Camus considerou a crise mais séria a que nos levou à revolta metafísica, em que inteligências humanas voltaram as costas a Deus.

Depois do pronunciamento do ministro Carlos Ayres Britto no STF (Supremo Tribunal Federal), na histórica tarde de 5 de março, indagamos: já chegamos ao tempo da pós-humanidade? Aquele discurso soou fundo, preconizando um sombrio cenário huxleyano.

Em "L'Homme Révolté" (1951), Albert Camus faz reflexão profunda sobre a principal crise da nossa época: a revolta metafísica, que ele tão bem analisa para entender "a força corrosiva do niilismo ativo" de nossos dias.

De fato, Camus considerou a crise mais séria de todos os tempos a que nos levou à revolta metafísica, em que grandes inteligências humanas voltaram as costas para Deus, ambicionando, numa obsessão patológica, tomar o seu lugar na história, no afã de obter o domínio completo da vida, em todas as suas formas e dimensões.

Trata-se de uma revolução filosófica que pretende reduzir a zero "as correntes metafísicas aristotélico-tomista e kantiana", como propõem Mark Johnson e George Lakoff, apólogos do cientificismo, ancorados nas neurociências.

Camus ressalta que, por causa dessa obsessão, há uma cumplicidade com o mal, no jogo do vale-tudo.

As palavras do ministro Carlos Ayres Britto nos levam a pensar na lucidez de Camus, quando afirmou que "há crimes de paixão e crimes de lógica (...) Os nossos criminosos já não são aquelas crianças desarmadas que invocavam o amor como desculpa. Hoje, pelo contrário, são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia, que pode servir para tudo, até para transformar assassinos em juízes".

Sim, "a filosofia -ou a ideologia-, que pode servir para tudo", inclusive tornar legítimo o assassinato das crianças não nascidas, o extermínio dos nascituros.

O que podemos esperar quando a Suprema Corte de um país reconhece que a Constituição só deve proteger a pessoa nascida, "residente, nata e naturalizada", e que "não há pessoa humana sem o aparato neural que lhe dá acesso às complexas funções do sentimento e do pensar" -e que, portanto, fora disso, é legítimo eliminá-la, negando-lhe o direito à vida?

Estamos, então, diante daquilo que Albert Camus chamou de "criminosos de lógica", em que "o crime se torna matéria de raciocínio".

O que o ministro Ayres Britto fez no Supremo Tribunal Federal foi uma apologia sofisticada àquilo que Camus chamou de "crime de lógica", porque, se prevalecer o seu voto, estará negado o direito à vida ao embrião humano, ao nascituro, enfim, ao ser humano não nascido, conforme a "teoria natalista" por ele assumida.

Continua Albert Camus: "O sentimento do absurdo, quando dele se pretende, em primeiro lugar, extrair uma regra de ação, torna o homicídio pelo menos indiferente e, por conseqüência, possível".

Para o ministro Ayres Britto, é indiferente o destino dos embriões humanos e dos nascituros, pois -como enfatizou- merece proteção constitucional só o ser humano nascido, dotado de seu perfeito aparato neural. Portanto, significa também privar do direito à vida os anencéfalos.

Como afirma Giorgio Filibeck, "a dignidade do ser humano ou é integral ou não é". Ayres Britto fez um recorte arbitrário ("o nascido dotado de aparato neural", coerente com o pensamento do neurologista sir John C. Eccles), criando, assim, a jurisprudência para os "crimes de lógica" a que se refere Albert Camus.

Porém, mesmo prevalecendo o seu "voto antológico", o aborto continuará sendo crime ante a lei natural, prática considerada muito grave por 71% da população brasileira segundo pesquisa realizada em outubro de 2007 pelo Datafolha, índice 10% maior em relação a pesquisa feita em 1998.

Mas o dado mais significativo dessa pesquisa foi que 87% da população ouvida condena a interrupção da gravidez por considerar essa prática moralmente incorreta. Diríamos nós, interpretando esse dado, que a maioria absoluta do povo brasileiro rejeita o aborto em qualquer fase da gestação do nascituro.

"Se o nosso tempo admite facilmente que o homicídio possua as suas justificações (pois foi o que fez o ministro Ayres Britto, decretando pena de morte ao embrião humano, ao nascituro, que já é ser humano), isso acontece devido à indiferença pela vida que caracteriza o niilismo", conclui Camus.

Jaime Ferreira Lopes, 53, bacharel em direito, assessor parlamentar da câmara dos deputados, é coordenador nacional do movimento nacional em defesa da vida - brasil sem aborto.

Hermes Rodrigues Nery, 42, bacharel em história, é membro do grupo de trabalho em defesa da vida da cnbb (conferência nacional dos bispos do brasil) e coordenador do movimento legislação e vida de taubaté (sp).

O outro artigo está embaixo.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Um comentário:

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Li um texto de uma amiga minha num outro blog em que ela dizia ue o Ayres Brito ofendeu a todos os homens, porque chamando um embrião de coisa, logo quis dize que todos, sem exceção, foram coisas antes de serem gentes. Realmente é um absurdo.

Mas pior que as atrocidades que ele disse é saber que há muitas pessoas que o aplaudem como a um Deus e como se o que ele disse seja palavras de uma mente sábia, dotada de inteligência.

É o fim dos tempos...