terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fraternidade com as mulheres? E quem pensa nos nascituros?

Saudações queridos leitores!

Cláudio Lembo escreve no Terra Magazine. Resolvi questionar um pouco seu artigo. Acompanhem a ele em vermelho e a mim em preto.

Fraternidade com as mulheres


Terça, 19 de fevereiro de 2008, 07h48
Cláudio Lembo

Um dramático acontecimento sacudiu a Itália. Em Nápoles, uma mulher submetia-se a um aborto terapêutico. Por intermédio de uma chamada telefônica anônima, denunciaram a clínica. A polícia compareceu. Rompeu a privacidade da paciente. Pasmem, apreendeu o feto. A partir do incidente, os jornais italianos desenvolveram acalorado debate. As colocações vão da moderação à apoplexia.

Eu pergunto: se a mulher já estava disposta a "descartar o feto", um eufemismo para matar um ser inocente, qual a preocupação com a apreensão da polícia?

Sem qualquer acréscimo, já por si, o tema contém elevada carga de emotividade. Esta vai do sensível campo da ética ao âmago da intimidade da mulher. Atinge sua integridade física e psicológica.

O tempo todo veremos essa argumentação de que o aborto atinge a integridade física e psicológica da mulher. Mas os abortistas não reconhecem a inviolabilidade da vida do nascituro quando não lhes é perfeitamente cômodo. Será que o feto não está vivo?

O aborto é envolvido por contornos de alta sensibilidade. A frágil condição do feto, indefeso e passivo. A dor e exposição suportadas unilateralmente pela mulher.

Nenhuma mulher submete-se à intervenção de forma fria. O nato instinto de mãe gera o sentimento de perda. Sua condição humana, a dose excessiva de humilhação. Expõe-se e submete-se à violência contra a sua integridade.

Opa! Como a dor é unilateralmente suportada pela mulher? Será que o feto, em sua frágil condição, tão humano quanto a mãe, não sente nada enquanto o matam? Percebam que o feto não é tratado como humano, apenas a mãe. O nascituro que está desprotegido no ventre da mãe não passa de um "feto", como se essa designação fosse referente a um ser inanimado, que não está se desenvolvendo como aconteceu com todos nós. Apesar de estar falando de uma vida, Cláudio Lembo trata como se fosse um objeto.

Os homens debatem o aborto sobre o importante prisma ético. Jamais captam, porém, a situação feminina no decorrer do processo de tomada de decisão e submissão à realidade. O aborto não pode ter leitura de mero ato de rotina. Não é. Jamais poderá ser tratado com frivolidade. Apresenta-se como uma intervenção de risco e repleta de interrogações.

Que interrogações? A única coisa que eu vejo é a violação do direito à vida de um inocente. Podem colocar quais atenuantes quiserem, o que acontece é que decidem o destino de um inocente à sua revelia. Quem corre o risco sempre fatal é o nascituro, que é o alvo principal.

Em toda parte, quando o assunto vem à tona, as discussões tornam-se acaloradas. Os argumentos partem de um conservadorismo excessivo. Ou levam a um grau ilimitado de liberdade.

O que Cláudio Lembo chama de conservadorismo excessivo é o que permitiu que ele estivesse vivo hoje para escrever o que escreve. É a defesa da vida, valor absoluto em nossa sociedade. O que ele chama de liberdade, só é liberdade para quem está em vantagem. Pois jamais soube de algum caso em que os médicos consultaram um feto para saber se ele gostaria de ser assassinado, ops, abortado.

É compreensível. Unem-se, ao tema, a presença da vida com seus sensíveis componentes. A atração entre duas pessoas, ainda que efêmera e circunstancial, e a concepção, sopro de novo ser.
Agrega-se mais. O dever comum a todas as pessoas de preservar a vida. Respeitar a dignidade do outro, ainda que embrionária. Preceitos que se estendem à figura da mulher. Ao submeter-se à intervenção, a mulher sofre violência contra a sua dignidade. As causas da concepção são múltiplas. A presença do imponderável. A ausência de sadia orientação sexual. As proles repletas de carências.

Através dessa linha de pensamento, passa-se a punir um terceiro por um crime que não cometeu. Todo crime deve ter sua justa pena para quem o cometeu. No caso de uma gravidez fruto de um estupro, o infrator deve ser punido. Mas nesse caso, consideram como infrator o nascituro, que comete o crime de ser gerado! Um ato do qual ele não tem a mínima responsabilidade, pois sequer existia quando a violência foi cometida.

Outro fator a se prestar atenção é que a pena de morte é proibida no Brasil. Um aborto provocado em uma vítima de estupro é semelhante a uma sentença de morte proferida e executada contra um inocente! Um duplo desrespeito à Constituição.

Quanto à falta de orientação sexual, mais uma vez pune-se quem não tem culpa disso. Não é o nascituro que orienta mal, mas sim quem tem tal responsabilidade, no nosso caso, cada vez mais, o Estado. Quem deve ser realmente punido pela orientação sexual defeituosa é o Estado, provedor do serviço, não o nascituro. Se o Estado não quer ter responsabilidade quanto a isso, que abra mão da educação sexual.

O tema perturba a humanidade desde épocas remotas. São Jerônimo, no ano trezentos, quando a ciência se limitava ao empirismo, posicionou-se. Antes do surgimento da aparência humana e dos membros, não existe violência contra o nascituro.


São Alberto Magno, em 1200, deduziu: a alma, no varão, infunde-se quarenta dias após a concepção e, na mulher, somente após noventa dias. Autores contemporâneos registram: a alma infunde-se na concepção.

O fato de São Jerônimo e Santo Alberto Magno, que foi mestre de São Tomás de Aquino terem se posicionado de tal maneira sobre a infusão da alma e sobre a licitude do aborto até um certo período não os torna certos. As informações, os estudos e o conhecimento que temos sobre a genética, as ciências biológicas e sobre a concepção já derrubaram tais posicionamentos a muitos anos.

O fato de tais pareceres terem sido proferidos por santos tão ilustres não faz com que gozem de infalibilidade. Com o conhecimento da época isso era o máximo que conseguiam dissertar sobre o assunto. São Tomás de Aquino negava o dogma da Imaculada Conceição, mas nem por isso é considerado herege, pois sua base teórica não permitia que ele soubesse disso, dado o nível de desenvolvimento do raciocínio. O mesmo vale para Santo Alberto e São Jerônimo

Múltiplas vertentes de pensamentos. Chocaram-se em debates acalorados nos parlamentos português, espanhol e italiano, nos últimos anos. Antes, em 1973, a Suprema Corte dos Estados Unidos debruçou-se sobre o assunto.
As realidades desses países alteraram-se. As mulheres tornaram-se titulares de seu corpo e de suas vontades. Abriram-se possibilidades para a sofrida intervenção.

O que houve na verdade é que as mulheres passaram a ser, além de titulares de seus próprios corpos, juízas e júri dos filhos que carregam em seu ventre. Passaram a decidir quem é que pode e quem não pode viver. Usurparam de um direito que não lhes pertence.

A unanimidade jamais se obteve. É impossível atingi-la frente a esta contingência existencial. Todas as vertentes levam a um dado essencial: a defesa da vida. Qual vida? A em gestação ou a vida em plenitude da mulher hospedeira?

Resposta digna de um enigma à moda antiga. Esse se amplia em complexidade quando a inviolabilidade do corpo da mulher é violada e desta agressão resulta concepção indesejável, indevida e inaceitável. A solução jamais será unânime. O aborto sempre encontrará posições de áspero antagonismo nos debates que proporciona. Nesses, quase sempre, restringe-se à participação de personalidades masculinas.

Bom momento para se alterar esta postura. Um tema, especialmente da mulher, por mulheres deverá merecer reflexão e debates. As conclusões terão que recolher o pensamento feminino, em sua plena sensibilidade.

Essa linha de argumentação é completamente caduca. Quer dizer que a prevenção da AIDS só pode ser discutida por aidéticos? As campanhas contra a dengue só podem ser discutidas por quem tem ou já teve a doença? Ser mulher não é requisito obrigatório para se discutir o aborto. Muito mais do que uma intervenção feminina, trata-se de o destino de uma vida!

Em sua Campanha da Fraternidade/2008, a Confederação dos Bispos Brasileiros trata a questão do aborto. Bom. Permitirá seu exame pelas diferentes expressões da inteligência.

Confederação dos Bispos Brasileiros? Suponho que ele esteja pensando na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A falta de conhecimento faz a gente passar uma vergonha...

A sociedade não pode se omitir. Deve participar. Recolher os dramas individuais das mulheres. Compreendê-los será sinal de maturidade. É momento dos homens ouvirem.


Nós, homens, estamos dispostos a ouvir. Mas não sejamos hipócritas. Ouçamos todos os lados envolvidos nessa questão: as mulheres e os filhos que elas carregam nos ventres. Partindo de seu princípio, qualquer discussão sem ouvir os nascituros não será completa.

O silêncio não condiz com os tempos contemporâneos. Ele apenas torna hipócrita a convivência humana. A hipocrisia já causou muitas vítimas. Milhares de mulheres sacrificadas. Ou vidas perdidas.

Realmente, o silêncio não deve imperar, assim como também não devem ser sacrificadas milhares de crianças que repousam de maneira indefesa nos ventres de suas mães, onde são constantemente ameaçadas por estar vivas. Os nascituros são julgados e condenados à morte pelo crime de viver.

A vida é um dom sagrado e está acima de qualquer outra coisa.

Que Deus nos livre da maldição do aborto!

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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