segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Carta aos participantes do 12º. Encontro Nacional de Presbíteros

Saudações queridos leitores!

Ainda há padres que honram o sacerdócio! Logo após o documento estarrecedor saído do 12° Encontro Nacional de Presbíteros, padres que discordam dos abusos que estão lá explicitados, manifestam-se. Interessante que a carta é anônima, possivelmente pelo temor de represálias. É bom que saibamos que muitos sacerdotes não concordam com essa baboseira do ENP.

Esse posicionamento do ENP é contrariado abertamente apenas pelo Vaticano. Dificilmente vemos padres e bispos locais erguendo-se contra tais abusos, algo que torna essa carta extraordinária.

Carta aos participantes do 12º. Encontro Nacional de Presbíteros


Queridos irmãos no sacerdócio:

É com grande estarrecimento que acolhemos a sua carta, que pretende ser a mensagem conclusiva do 12º. ENP. De fato, o referido encontro, que recebe representantes de todas as Dioceses do Brasil, também delineia um perfil da atual conjuntura do clero brasileiro, o que nos deixa bastante constrangidos.

Num dos parágrafos de sua carta, afirma-se: “acreditamos que somos capazes de transformar as relações entre as pessoas e as relações do ser humano com a natureza e transformar a sociedade excludente”. Este é, por assim dizer, o núcleo de todos os seus demais equívocos.

Infelizmente, os srs. aderiram a uma mentalidade de corte revolucionário, que pretende ser a salvadora de todo o mundo, mediante uma ideologia que se apresenta como o baluarte da construção do Reino de Deus sobre a Terra. Em nome de um hipotético paraíso futuro, os srs. consideram o presente apenas como uma etapa, e a descontinuidade com o passado, como a norma de conduta fundamental que norteia toda a ação que esteja conseqüentemente afinada com o 'projeto'.

Os srs. se consideram os salvadores do planeta e, por isso, todo o resto, inclusive a Igreja e o papa, constituem para os srs um ônus insuportável, com o qual não se pode mais conviver. Afinal de contas, os srs. acham que estão acima da Igreja, porque se constituíram em representantes de um utópico Reino futuro, para o qual a Igreja é apenas uma etapa desgraçadamente necessária...

Em nome deste imaginário paraíso reinocêntrico, os srs. criam um moralismo mais rígido que o pior legalismo teórico que já se viu na face da terra. E na trilogia “pobres, mulheres e CEB’s” os srs. forjam os elementos essenciais deste roteiro falsamente obrigatório, sem o qual qualquer um está automaticamente condenado, e com o qual qualquer um, mesmo que tenha abandonado o sacerdócio e a fidelidade à fé, está justificado, a priori.

Felizmente, essa soberba utópica, que os constitui em “heróizinhos” de contos de fada, não os levou a lugar nenhum, senão à maior debandada de católicos que já se viu na História da Igreja, no Brasil. Todos os testemunhos elencados pelos srs. são a demonstração mais patente de uma opção eclesial em si mesma falida.

Sabem por que essa opção faliu? Porque os srs. não são os salvadores do mundo, os srs. não são capazes de criar um paraíso e, ademais, com este tipo de mentalidade, os srs. não representam on pensamento de todo o clero brasileiro! Essa soberba somente os faz cegos e completamente vulneráveis a um bando de manipuladores que, incessantemente, querem ter o destino da Igreja em suas mãos. Esses guias de cegos rejeitam a salvação trazida por Cristo, rebaixam-na ao nível de um projeto social, e transformam os srs. em ativistas políticos, que visam implantar um sistema totalitário, que seria a resposta para todos os males do mundo. Teimosamente, resistem em mudar, em renovar-se. Esta obstinação intolerante não seria também um tipo de tradicionalismo castrista, um conservadorismo mascarado com vestes de vanguarda?...

Acordem srs. padres! Nós já temos um salvador, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. De nossa parte, a única coisa que está ao nosso alcance é viver correspondendo à nossa vocação, cada dia de uma vez; é ensinar a doutrina cristã com clareza, não deixando nossos fiéis expostos à falácia dos aproveitadores; é administrar com fidelidade e obediência os sacramentos da Igreja, sem cedermos à tentação de nos tornarmos os protagonistas de uma ação na qual apenas a pessoa de Jesus tem que transparecer; é guiar a nossa paróquia e demais comunidades com uma tal laboriosidade e responsabilidade que nos leve a não brincarmos com as pessoas, sendo amadores de sacristia. O sacerdote tem que saber pastorear, e a sua alegria sempre será consumir-se cada dia pela porção da Igreja que Deus colocou entre as suas mãos.

Falta muito bom senso entre nós! Já é hora de pararmos com esta brincadeira, de abandonarmos tanto palavrório vazio e fantasioso e nos deixarmos humildemente guiar pelo exemplo dos sacerdotes santos de todos os tempos, estes sim, modelos inequívocos de dedicação absoluta à grei que nos foi transmitida: S. João Crisóstomo, S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Leão Magno, S. Carlos Borromeu, S. João Maria Vianey, S. João Bosco, S. Pio de Pietrelcina, S. Pio X, o servo de Deus João Paulo II, entre tantos.

Tenhamos espírito de fé e ouçamos com atenção a voz do Santo Padre. São muitos os padres que cedem a esta ridícula atitude de rebelar-se contra o magistério pontifício: querem que a Igreja referende todas as suas opiniões como se fossem verdades de fé dogmática. Um pouco mais de humildade seria suficiente para trazer ao bom senso muitos sacerdotes que se perderam no ridículo de considerarem suas opiniões mais relevantes que toda a tradição cristã.

“Se o sacerdote fizer de Deus o fundamento e o centro de sua vida, então experimentará a alegria e a fecundidade da sua vocação. O sacerdote deve ser antes de tudo um ‘homem de Deus’ (1 Tm 6, 11); um homem que conhece a Deus ‘em primeira mão’, que cultiva uma profunda amizade pessoal com Jesus, que compartilha os ‘sentimentos de Jesus’ (cf. Fl 2, 5)” (Bento XVI, S.S. Seção Inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, 13.5.2007).

Deus conta conosco, neste Novo Milênio que a pouco iniciamos. Não percamos tempo com as tolices de uma teologia que se atrelou às modas de um marxismo reacionário e doentio. Voltemos nosso coração a Cristo, “o Verbo que se fez carne” e, então, descobriremos que a nossa identidade é apenas a dEle, Sumo e Eterno Sacerdote. Não temos outra ambição senão sermos apenas plenamente padres, sem nenhum outro qualificativo adicional. Isto nos basta!

Um modo muito simples de rejeitar tudo o que dissemos é classificar preconceituosamente nosso posicionamento. Com muita sinceridade digo a todos: pensem um pouco, cultivem o bom senso e a inteligência. Eu lhes garanto, abandonar este enfoque rançoso e estragado não é apenas útil, mas fundamentalmente necessário, se não nos quisermos perder numa areia movediça de inconsistências que levaram muitos a esvaziarem o sentido de sua vocação no vácuo de sofismas vãos e, como sempre, mentirosos. Chega de sermos “heroizinhos”. Sejamos sacerdotes fiéis ao sagrado celibato, filial e fielmente unidos ao Santo Padre, valentes, piedosos, apostólicos e sinceros; então sentiremos a galhardia daqueles que empenharam toda a sua vida não numa ilusão utópica, mas na verdade do Evangelho, que não depende de chavões e neologismos, mas apenas de Cristo, que é o fundamento da nossa verdadeira esperança.

Sem mais,

um sacerdote da periferia.

Que Deus abençoe abundantemente esses "padres da periferia" e que aqueles que elaboraram e contribuíram para a aprovação do documento do ENP convertam-se.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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