sábado, 12 de janeiro de 2008

Opus Dei, o lado de fora

Saudações queridos leitores!

Um grande amigo me manda um texto sobre o Opus Dei, de 2005. Como o blog ainda não tinha nascido nessa época, nunca comentei sobre esse texto. Aproveito para fazê-lo agora. Fiquem com o texto da Folha (fonte aqui) em vermelho com comentários meus em preto.

Opus Dei, o lado de fora

"Pouco me importa que me digam que fulano é um bom filho meu --um bom cristão--, mas um mau sapateiro! Se não se esforça por aprender bem o seu ofício ou por executá-lo com esmero, não poderá santificá-lo nem oferecê-lo ao Senhor. E a santificação do trabalho ordinário é como que o eixo da verdadeira espiritualidade para os que --imersos nas realidades temporais-- estão decididos a ter uma vida de intimidade com Deus." Compare-se esse trecho, extraído da coletânea de homilias "Amigos de Deus", do fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá de Balaguer, a este, do clássico "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" (versão de 1920) do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920):

"A fé precisa se comprovar por seus efeitos objetivos a fim de poder servir de base segura para a certitudo salutis [certeza da salvação]: precisa ser uma fides efficax, e o chamado à salvação, um effectual calling (...). Ora, se perguntarmos em que frutos o reformado é capaz de reconhecer sem sombra de dúvida a justa fé, a resposta será: numa condução da vida pelo cristão que sirva para o aumento da glória de Deus. (...) Só quem é eleito possui a verdadeira fides efficax, só ele é capaz, por conta de seu renascimento (regeneratio) e da santificação (sanctificatio) da sua vida inteira, de aumentar a glória de Deus por meio de obras boas realmente, não apenas aparentemente boas."

Não penso que seja possível comparar a Santificação do Trabalho, ensinada por São Josemaría com a predestinação pregada por Max Weber. Enquanto Weber prega que somente aqueles predestinados conseguem praticar boas obras, São Josemaría, em um aspecto muito mais evangélico, nos ensina que todos podemos praticar as boas obras e que essas são parte do projeto salvífico, não sua integralidade. Como São Tiago nos ensina em sua carta: A Fé sem obras é morta. E as obras por si só não salvam ninguém.

Há muitas diferenças entre um e outro. Enquanto o padre espanhol define a essência de sua Obra, que ganhou força na segunda metade do século 20, Weber descreve um dos principais mecanismos espirituais do calvinismo florescente, dos séculos 16 e 17. Enquanto esta religião se funda na cosmologia da predestinação (as cartas da salvação são restritas e foram distribuídas no ato da criação, não cabendo ao homem alterar o que foi determinado pelo Deus das razões insondáveis, com o qual um calvinista jamais cogitaria de privar "intimidade"), o eixo do catolicismo de Escrivá, na tradição de Paulo de Tarso, é a evangelização dos povos, a oferta da salvação celestial a todos.

Como explicado anteriormente, São Josemaría nos mostra que a Salvação está ao alcance de todos. O pensamento calvinista equivoca-se ao insinuar que Deus, que é Amor, seria perverso o suficiente para criar muitos de nós simplesmente para ir para o inferno, visto que a predentinação não é para todos. Tal teoria acaba por tornar a oração, as obras e até mesmo a fé inúteis, visto que já nascemos com nosso destino selado.

É assim que o foco da crítica do fundador do Opus Dei ao mau sapateiro é a sua falta de esforço para melhorar na profissão, pois todos têm condições de esmerar-se no que fazem no seu dia-a-dia. Por seu turno, a um calvinista ideal, como descrito pelo estudioso alemão, de nada vale um esforço que não se traduza em sucesso (pior: pode ser um sinal de danação).

Se os contextos históricos e religiosos dos dois fenômenos são abissalmente distintos, é tentador alinhavar a hipótese de que as implicações na vida prática de um e de outro (de um lado, o que Weber denomina "protestantismo ascético"; do outro a "santificação do trabalho" intramundano, pedra de toque da Obra de Escrivá) mais convergem que divergem. Ambos dinamitam diques culturais e inundam a vida cotidiana --o trabalho em particular-- com ética religiosa. Ambos traduzem padrões de conduta antes associados ao monasticismo e os democratizam, tornando-os atributos da comunidade dos fiéis e de cada indivíduo que crê.

Ambos os pontos de vista possuem alguns aspectos semelhantes, mas a essência, conforme demonstrei acima, é totalmente diferente. Enquanto um prega que as boas obras são sinal de santificação e predestinação à salvação, outro prega que através das boas obras podemos santificar nosso trabalho como parte do projeto de nossa Salvação.

"Uma das conseqüências de ser 'contemplativo no meio do mundo', como entende o Opus Dei, é que a 'religiosidade' deixa de ser uma categoria distinta da experiência. As experiências mais 'religiosas' de alguém podem se dar nos escritórios, nas quadras esportivas, na cozinha, na rua, no quarto ou no hospital. Escrivá disse certa vez que sua cela monástica era a rua, no sentido de que um membro do Opus Dei deve sair da igreja pela mesma razão que nela entra --para estar em união com Deus." Assim escreve John Allen Jr., em "Opus Dei - os Mitos e a Realidade" (ed. Campus).


A conseqüência das pregações de Escrivá é a pretensão de que as ações do dia-a-dia, das mais comezinhas às mais importantes, sejam sempre submetidas a um rigoroso controle ético, controle cuja finalidade é religiosa (oferecer uma boa ação a Deus e vislumbrar a salvação após a morte), mas cujos parâmetros são bastante pragmáticos (trabalhar para ser o melhor no que se faz, com o máximo de esforço e o máximo de dedicação).

Os resultados temporais das obras bem praticadas são facilmente notados. Pessoas que exercem o trabalho ordinário com mais capricho (seja por qual motivo for) se destacam em seu meio e conseguem as melhores oportunidades. A essência não é o trabalho bem feito, mas sim o oferecimento da dedicação no trabalho a Deus.

É nesse sentido --e apenas nesse-- que caminha Allen Jr., embora sem proceder a uma revisão acadêmica mais aprofundada do assunto (o livro tem objetivos jornalísticos), quando qualifica a emergência do Opus Dei, no contexto da tradição milenar do catolicismo romano, de "revolucionária". A "revolução dos leigos" que se seguiu ao Concílio Vaticano 2º (1962-1965), teve no movimento iniciado por Escrivá no final dos anos 1920 um de seus grandes precursores.


Essa revolução ocorreu logo após a crise que se estabeleceu no clero. Como o número de vocações diminuía e muitos sacerdotes abandonaram a batina, os leigos assumiram um espaço maior na participação nas atividades eclesiais, o que fez com que a Obra tivesse uma grande projeção.

O papado de João Paulo 2º encontrou nos movimentos teologicamente conservadores, integristas até (e aqui o Opus Dei já passa a ser um entre vários e nem de longe o mais radical), uma força de renovação de sua influência no mundo (esses grupos voltaram a atrair jovens para a Igreja Católica, uma juventude disposta a demonstrar e defender publicamente sua fé fervorosa) e um ponto de apoio no combate sem trégua às correntes católicas que se aproximaram do marxismo --doutrina esta que nasceu anticlerical e assim se firmou. Sob Bento 16, a tendência deve continuar. Os tributos sutis de um cultivado Joseph Ratzinger à "religiosidade do cotidiano" perpassam a sua primeira encíclica, "Deus Caritas Est", desde o tema escolhido, o amor cristão.

Ser conservador é uma coisa boa. Conservar a Verdade é uma coisa boa. O que a Obra faz, nada mais é do que pregar aquilo que a Igreja sempre pregou, de modo acessível a todas as pessoas, de um jeito que eles possam colocar em prática o tempo todo.

O fato de o Opus Dei ser bem visto pelo papado não significa, porém, que sua inserção no catolicismo romano esteja resolvida. É lícito supor que a opção da Cúria por endossar a Obra tenha sido também motivada pela intenção de controlar seus aspectos mais inovadores. A complicação foi tanta que o Vaticano acabou por criar no início dos anos 1980, depois de décadas de debates e respostas parciais, uma categoria jurídica especial para acomodar o Opus Dei, que recebeu o nome de "prelazia pessoal". Categoria verdadeiramente "pós-moderna", se é que o termo pode ser aplicado no catolicismo, pois reconhece a não-territorialidade da Obra, quando a estrutura de poder da Igreja Católica, herdada do Império Romano, sempre foi paroquial, fundada na divisão física dos territórios. A lei canônica subordina os fiéis do Opus Dei às respectivas dioceses, mas a prática é sempre mais complicada.

O caráter não-territorial da Obra é reflexo de seu carisma, que diz que podemos ser santos em qualquer lugar, em qualquer ocasião. Mas isso, definitivamente não descarta a estrutura paroquial da Igreja, pois a Obra é apenas um entre os muitos carismas existentes na Igreja. Jamais o Opus Dei teve pretensão de ser o único meio de santificação na Igreja. Pensar isso é alimentar um sectarismo temerário.

O problema poderia se resumir ao seguinte: ao conferir certa autonomia pastoral a um grupo de leigos que doutrinariamente atenua a importância dos equipamentos tradicionais da igreja, cedendo ao indivíduo mais ferramentas para medir sua relação pessoal com o divino e estabelecendo a vida fora dos templos como terreno privilegiado do exercício e da experiência religiosa, não estaria o Vaticano abrindo demais a guarda, arriscando-se a ser paulatinamente retirado do centro da vida prática e religiosa desses fiéis? Respostas para benedictxvi@vatican.va.

Esse é um risco inexistente, visto que na Obra a obediência total e irrestrita à Igreja é um dos aspectos mais evidenciados entre seus membros. Para corrobar isso, trago um pensamento de Caminho, número 519: Esse grito - "serviam!" - é vontade de “servir” fidelissimamente a Igreja de Deus, mesmo à custa dos bens, da honra e da vida.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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