sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Carta do Prelado (janeiro de 2008)

Saudações queridos leitores!

A partir de hoje publicarei todos os meses a carta enviada pelo Prelado do Opus Dei, Dom Javier Echevarría. É uma grande fonte de meditação e conhecimento, além de mostrar ao mundo muito do carisma da Obra.

Carta do Prelado (janeiro 2008) Nestas linhas, mons. Javier Echevarría recorda que os cristãos – respeitando a liberdade de todos – devem transmitir a sua fé com o exemplo e com a palavra.

07 de janeiro de 2008

Caríssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

Desde o passado 25 de dezembro, tudo nos fala do nascimento de Cristo, Verbo eterno do Pai, encarnado e nascido da Virgem Maria para nos salvar. Nos países de tradição cristã, a piedade popular manifesta de mil modos a alegria perante este maravilhoso Mistério. Muitos homens e mulheres de boa vontade, mesmo não cristãos, compartilham com os católicos os ideais de paz, justiça e solidariedade evocados nesta festa, o que constitui uma prova mais de como a mensagem de Cristo dá resposta às aspirações mais profundas do ser humano.

No entanto, para além do despertar desses desejos – que têm a sua importância, sobretudo em momentos como os atuais, caracterizados pela falta de paz em muitas nações e em muitas consciências –, o que é decisivo no Natal é o próprio acontecimento que comemoramos. Recordava-o o Santo Padre poucos dias antes desta festa: “Em Belém, manifestou-se ao mundo a Luz que ilumina a nossa vida; foi-nos revelado o Caminho que nos conduz à plenitude da nossa humanidade. Se não se reconhece que Deus se fez homem, que sentido tem festejar o Natal? A comemoração esvazia-se. Em primeiro lugar, nós, cristãos, devemos reafirmar com profunda e sentida convicção a verdade do Nascimento de Cristo, a fim de testemunharmos diante de todos a consciência de um dom inaudito, que é riqueza não só para nós, mas para todos” (Bento XVI, Discurso na audiência geral de 19/12/2007).

O Natal volta a pôr diante dos nossos olhos a urgência de colaborarmos com Cristo na aplicação dos frutos da Redenção. Os pastores de Belém dão-nos um bom exemplo disso: depois de terem acorrido pressurosos à gruta, onde encontraram Maria, José e o Menino reclinado na manjedoura, regressaram ao seu trabalho habitual cheios de alegria. Voltaram mudados por dentro, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e desejosos de comunicar aos seus parentes e vizinhos a boa nova; desse modo, todos os que os ouviam maravilhavam-se das coisas que os pastores lhes contavam (cf. Lc 2, 16-20). E isso apesar de serem, muito provavelmente – tal como acontece ainda hoje –, pessoas retraídas, pouco dadas à conversa.

Quando alguém experimenta uma grande alegria, sente o impulso de comunicá-la às pessoas com quem se relaciona. E com mais razão quando se trata da vida sobrenatural que Jesus trouxe à terra. É uma felicidade que não é possível ocultar, porque a vocação cristã, por natureza, traz consigo a vocação apostólica. A alegria de termos sido salvos por Deus não cabe num só coração. Santo Agostinho diz que quem consegue a conversão de uma alma tem a sua predestinada. Pensai, então, o que não será trazer outras almas ao caminho de Deus, à entrega! Algo maravilhoso! […]. Porque o bem é de per si difusivo. Se eu desfruto de um bem, terei necessariamente desejos eficazes de que os outros venham participar dessa mesma felicidade (São Josemaria, Apontamentos tomados numa tertúlia, 29/12/1959).

No entanto, consolidou-se em muitos lugares a falsa idéia de que não é conveniente falar das próprias convicções religiosas a outras pessoas. Equivale – dizem – a intrometer-se na vida privada dos demais, atentando contra a intimidade de cada um. Devemos rejeitar semelhante atitude e estar sempre dispostos a manifestar a razão da esperança que nos traz a nossa vocação cristã (cfr. 1 Pe 3, 15), com desejos sinceros de que a boa nova da salvação ressoe nos ouvidos dos nossos parentes, amigos e conhecidos.

Não podemos conformar-nos com o testemunho do exemplo, porque só o exemplo – embora indispensável – não basta. Lembremo-nos da censura que o Senhor dirigiu àqueles que não advertiam o povo dos perigos da idolatria: São cães mudos incapazes de latir, sonolentos, deitados ao comprido, amigos de cochilar (Is 56, 10).

Filhas e filhos meus, permaneçamos vigilantes para não nos tornarmos merecedores dessa censura do Senhor; deixaríamos de ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-14). E isso não deve acontecer. Alimentas o teu fervor apostólico como se fosse um instinto sobrenatural? De que maneira pedes ao Senhor que ponha nos teus lábios a palavra oportuna nas tuas conversas diárias, incluídas as de caráter profissional, e nos tempos de descanso? É preciso falar aos homens e mulheres da divina condescendência que se manifestou com a vinda do Filho de Deus ao mundo, e dizer-lhes que o Senhor espera a nossa colaboração no anúncio da sua mensagem de amor, de vida e de paz.

Há poucas semanas, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, que Bento XVI recomenda à meditação de todos os fiéis (cf. Discurso na audiência geral, 19/12/2007). Entre outros pontos, esse documento recorda que “estimular honestamente a inteligência e a liberdade de uma pessoa a caminhar em direção ao encontro com Cristo e com o seu Evangelho não é uma intromissão indevida, mas um oferecimento legítimo e um serviço que pode tornar mais fecunda a relação entre os homens” (Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, 3/12/2007, n. 5). Mais ainda: “A atividade por meio da qual o homem comunica a outros homens eventos e verdades significativas do ponto de vista religioso, favorecendo a sua recepção, não somente está em profunda sintonia com a natureza do processo humano de diálogo, de anúncio e de aprendizagem, como também corresponde a outra importante realidade antropológica: é próprio do homem o desejo de fazer com que os outros participem dos próprios bens” (ibid., n. 7).

Naturalmente, nisto e em tudo, não só respeitamos a intimidade e a liberdade dos outros, como a defendemos; excluímos toda a forma de violência. Conservamos muito vivo o exemplo e o ensinamento de São Josemaria, que nos dizia: Defendi sempre a liberdade das consciências. Não compreendo a violência: não me parece apta nem para convencer nem para vencer (São Josemaria, Questões atuais do cristianismo, n. 44).

Veio-me à memória a insistência do nosso Padre neste ponto. Talvez se tenha feito mais freqüente quando começou a difundir-se em alguns ambientes a idéia de que não é necessário falar da nossa fé com as outras pessoas; de que basta o testemunho da própria conduta. Em face dessa atitude, que poderia paralisar as ânsias missionárias da Igreja, São Josemaria reagia com fortaleza apostólica. Concretizava: É preciso que os meus filhos procurem ocasiões de falar, de comunicar estas maravilhas que o Senhor nos confiou. Para trabalhar cristãmente, não basta a presença (São Josemaria, Apontamentos tomados numa tertúlia, 25/08/1968).

Quando se aproximava a conclusão do Concílio Vaticano II, o nosso Fundador impeliu-nos a pôr em prática os grandes ensinamentos dessa magna Assembléia da Igreja; sobretudo, convidava-nos a recordar às pessoas, em público e privadamente, a chamada universal à santidade e ao apostolado proclamada com toda a força pelo Concílio. Instava-nos a manter com todos – católicos e não católicos, cristãos e não cristãos – uma perseverante conversa apostólica, baseada na verdade e na caridade. Assim viveu até o final. Passam pela minha cabeça muitas lembranças de como ele aproveitava as ocasiões para servir as almas desse modo.

Eram tempos em que se propalava muito que era melhor não expor a fé cristã às outras pessoas; alguns chegavam até a conceber o diálogo como um colóquio em que era preciso deixar de lado as verdades ensinadas pela Igreja, como se qualquer opinião relativa a Deus e às verdades reveladas fosse igualmente válida e autêntica. Nessas circunstâncias, partindo do Evangelho, São Josemaria comentou os múltiplos exemplos das conversas ou pregações que Jesus Cristo manteve com os seus contemporâneos. E alegrava-se ao verificar que os cristãos se tinham comportado da mesma maneira ao longo dos séculos, seguindo o exemplo do Mestre. Os primeiros Doze – para pregar o Evangelho – mantiveram uma conversa maravilhosa com todas as pessoas que encontraram, que procuraram nas suas viagens e peregrinações. Não haveria Igreja se os Apóstolos não tivessem mantido esse diálogo sobrenatural com todas aquelas almas. Porque o apostolado cristão não é senão isso: Ergo fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi (Rom 10, 17); uma vez que a fé provém do ouvir, e o ouvir depende da pregação da palavra de Jesus Cristo (São Josemaria, Carta de 24 de outubro de 1965, n. 13).

Na sua recente carta-encíclica sobre a esperança cristã, o Papa expõe incisivamente estes ensinamentos. Partindo de que o desejo de santidade é algo intransferível – ninguém nos pode substituir na correspondência pessoal à graça –, Bento XVI explica: “A relação com Jesus é uma relação com Aquele que se entregou a si mesmo em resgate por todos nós (cf. 1 Tim 2, 6). Estar em comunhão com Jesus Cristo faz-nos participar do seu ser «para todos», faz com que este seja o nosso modo de ser. Compromete-nos em favor dos outros” (Bento XVI, Carta-encíclica Spe salvi, de 30/11/2007, n. 18). A necessidade de comunicar a boa nova da salvação a outras almas tem a sua raiz aí. A nossa vocação de filhos de Deus, no meio do mundo, exige não apenas que procuremos atingir a nossa santidade pessoal, mas que avancemos pelos caminhos da terra, para convertê-los em atalhos que, através dos obstáculos, levem as almas ao Senhor (São Josemaria, É Cristo que passa, n. 120). Sabemos com toda a certeza – pois é algo inerente à chamada recebida – que o Senhor deseja que incrementemos o apostolado pessoal de amizade e confidência, tão característico dos fiéis que vivem por vocação divina no meio do mundo, e, concretamente, dos que se alimentam do espírito do Opus Dei.

Neste ano, completam-se setenta e cinco anos desde que São Josemaria deu um impulso decisivo ao trabalho apostólico com a juventude, que vinha realizando desde a fundação do Opus Dei. Com efeito, foi no dia 21 de janeiro de 1933, um sábado, que o nosso Padre reuniu pela primeira vez um pequeno grupo de jovens para lhes dirigir uma palestra de formação cristã.

Com que sentido sobrenatural, com que entusiasmo e carinho o nosso Fundador começou essa atividade! No entanto, como tantas vezes relembrou, só três rapazes assistiram àquele primeiro Círculo, apesar de se terem convidado nove ou dez. São Josemaria não desanimou. Cheio de fé, confiando na intercessão de Nossa Senhora e de São José, e recomendando novamente esse trabalho ao Arcanjo São Rafael e ao Apóstolo São João, deu a bênção com o Santíssimo Sacramento àqueles primeiros. Meditemos devagar nas suas palavras: Ao terminar a aula, fui à capela junto com aqueles rapazes, tomei o Senhor Sacramentado no ostensório, levantei-o, abençoei aqueles três…, e eu via trezentos, trezentos mil, trinta milhões, três bilhões…, brancos, negros, amarelos, de todas as cores, de todas as combinações que o amor humano pode fazer. E fiquei aquém, porque é uma realidade […]. Fiquei aquém, porque o Senhor foi muito mais generoso (São Josemaria, Apontamentos tomados numa tertúlia, 19/02/1975).

No dia seguinte, domingo, 22 de janeiro, teve lugar a primeira catequese – meio imprescindível no trabalho apostólico com a juventude e também com outras pessoas –, em que colaboraram alguns dos rapazes que o nosso Padre conhecia. Foram a um colégio das redondezas de Madri, no bairro de Los Pinos, onde os esperava um monte de crianças. As aulas de formação, a catequese e as visitas aos pobres e doentes – que o nosso Fundador realizava desde muito antes – foram e sempre serão um fundamento solidíssimo deste apostolado, que é – assim o nosso Padre se expressava sempre – como a menina dos nossos olhos.

Logicamente, o peso e a alegria de levar adiante este apostolado recaem principalmente sobre os fiéis mais jovens da Prelazia, e sobre aqueles a quem se confia especialmente este encargo. Filhas e filhos meus, pensai na confiança do Senhor, que deseja pôr nas vossas mãos – para que as modeleis, como o escultor modela o barro – as almas de tantas jovens e de tantos jovens que procuram sinceramente o sentido profundo de suas vidas. Preparai bem os Círculos e as aulas de doutrina cristã, pedi ao Espírito Santo que ponha nas vossas palavras uma força que arraste, e lançai-vos decididamente a falar com as vossas amigas, com os vossos amigos, entabulando um diálogo apostólico que os leve a Cristo, suaviter et fortiter (cf. Sab 8, 1), com suavidade e com fortaleza.

É muito tocante a insistência com que Bento XVI fala da necessidade de convidar os jovens a ser generosos, a aproximar-se mais do Senhor, a segui-lo. Sirvamos-lhe de eco ao ouvido de muitos, confiando na ação do Espírito Santo e na capacidade de se entregarem ao serviço de ideais grandes, que sempre é uma característica da juventude, ainda que às vezes pareça dormitar nos corações.

Recorramos com confiança a São Rafael e a São João, Padroeiros deste trabalho, e também a São Josemaria, que o começou há já tantos anos. Tende presente que, deste modo, estais – estamos – preparando o futuro da Igreja, o porvir cristão da sociedade.

Com todo o afeto, abençoa-vos

o vosso Padre

† Javier

Roma, 1º de janeiro de 2008.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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