segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O Movimento Anti-Seitas e o Opus Dei

Saudações queridos leitores!

Trago hoje para vocês um artigo que um grande amigo, Alexandre Fernandes, participante do Caminho Neocatecumental, traduziu. Esse artigo foi feito a algum tempo, quando os ataques contra o Opus Dei eram bem mais intensos do que são hoje, mas ainda conserva toda sua atualidade.

Por Alexandre Marcelo Fernandes da Silva


Introdução

Por razões pessoais e familiares tenho acompanhado com grande interesse as discussões que se seguiram à onda de calúnias contra o Opus Dei lançada pelo grupo Opus Livre. Uma das principais acusações levantadas contra o Opus Dei é a suposta “lavagem cerebral” que seria imposta a seus membros. Conforme pude constatar em pesquisas feitas na Internet, o conceito de “lavagem cerebral” é considerado sem valor científico por importantes e reputadas associações de psicólogos, sendo considerado um termo de conteúdo ideológico e sensacionalista.

O que é o CESNUR?

Existe farta e confiável documentação sobre a questão da lavagem cerebral no site do CESNUR, http://www.cesnur.org, uma entidade que é descrita no texto abaixo, tradução de um trecho de um texto em inglês encontrado em http://www.cesnur.org/about.htm#ing.

O CESNUR, “The Center for Studies on New Religions”, foi estabelecido em 1988 por um grupo de estudiosos da religião de grandes universidades da Europa e das Américas. Seu diretor, professor Massimo Introvigne, tem ocupado cargos docentes em diversas universidades italianas. É autor de vinte e três livros e editor de outros dez no campo de ciências da religião. O objetivo original do CESNUR foi oferecer uma associação profissional para estudiosos especializados em minorias religiosas, novos movimentos religiosos, escolas esotéricas, gnósticas e espirituais contemporâneas, e a nova consciência religiosa em geral. Nos anos 90 tornou-se aparente que informações inexatas estavam sendo disseminadas entre os meios de comunicação e os poderes públicos por ativistas associados com o movimento internacional anti-seitas. Alguns novos movimentos religiosos também disseminavam informações não confiáveis ou facciosas. O CESNUR tornou-se mais ativo e passou a fornecer informações em uma base mais regular, abrindo centros públicos e organizando conferências e seminários em vários países para o público em geral. O CESNUR hoje é uma rede organizações independentes mas relacionadas de estudiosos em vários países, dedicada a promover pesquisas acadêmicas sobre o campo da nova consciência religiosa, visando a divulgação de informações fidedignas e responsáveis, e à exposição da verdadeira problemática associada a alguns movimentos religiosos, defendendo sempre e ao mesmo tempo os princípios da liberdade religiosa. Embora estabelecido em 1988 por estudiosos que eram em sua maioria católicos romanos, o CESNUR teve desde o início grupos de dirigentes que incluíam uma variedade de confissões religiosas. É independente de qualquer Igreja, denominação ou movimento religioso. O CESNUR internacional foi reconhecido como um entidade pública sem fins lucrativos pelas autoridades italianas em 1996, as quais são os atuais contribuintes de seus projetos. Também é financiado por royalties dos livros publicados em diferentes editoras, e por contribuições de membros.

O Movimento Anti-Seitas

O conceito de “lavagem cerebral” aplicado aos novos movimentos religiosos tem sido divulgado ativamente pelo Movimento Anti-Seitas, de caráter laicista, que nos últimos anos também tem se dedicado a atacar o Opus Dei.

Comentarei a seguir trechos de “Opus Dei and the Anti-cult Movement”, tradução inglesa de um artigo de Massimo Introvigne que apareceu em Cristianità nº 229 (Maio 1994 páginas 3--12), que pode ser encontrado em http://www.cesnur.org/2005/mi_94.htm.

Neste artigo Massimo Introvigne comenta um livro de Vittorio Messori sobre o Opus Dei. O artigo é dividido em duas partes: a primeira contém uma descrição do Opus Dei, em que se procura rebater críticas à prelazia. Na segunda parte descreve-se a campanha do Movimento Anti-Seitas contra o Opus Dei.

Apresenta-se inicialmente uma breve explicação sobre a natureza do Movimento Anti-Seitas e como ele difere do que tem sido chamado movimento contra-seitas.

O movimento contra-seitas surgiu em um ambiente religioso, principalmente de caráter protestante-evangélico, nos Estados Unidos. Ele critica as “seitas” de um ponto de vista qualitativo, mostrando aspectos doutrinais contrários à ortodoxia cristã.

O Movimento Anti-Seitas é apresentado no seguinte parágrafo:

On the contrary, the anti-cult movement arose from a secularist background and it claims that it is exclusively concerned with deeds and not with creeds. It will denounce as “sectarian” any form of religious experience which, from a quantitative point of view, appears to be more intense than modern secularism is ready to tolerate.

Em minha tradução para o português:

Ao contrário [do movimento contra-seitas], o movimento anti-seitas surgiu em um contexto secularista e afirma preocupar-se exclusivamente com atitudes e não com credos, “"with deeds and not with creeds"”. Denunciará como “sectária” qualquer forma de experiência religiosa a qual, de um ponto de vista quantitativo, pareça ser mais intensa do que o secularismo moderno está disposto a tolerar.

O movimento evangélico contra-seitas raramente atacou o Opus Dei como uma “seita”, uma vez que que o Opus Dei não possui uma “doutrina” própria, diferente da Igreja Católica, e também porque as mesmas acusações de excessivo zelo apostólico feitas contra o Opus Dei podem também ser feitos contra grupos e movimentos protestantes, como já foi feito algumas vezes pelo movimento anti-seitas.

Os Primeiros Ataques ao Opus Dei

Os ataques ao Opus Dei, vindos de fora e infelizmente de dentro da Igreja Católica, são tão antigos quanto a própria entidade.

Os ataques dentro da Igreja Católica inicialmente vieram principalmente de membros de congregações religiosas, que não viam com bons olhos uma organização que se pretendia um tertium genus entre ordens religiosas e associações de fiéis.

Posteriormente estes ataques tomaram um caráter mais político ou doutrinal, vindos principalmente de grupos “progressistas”, ligados à Teologia da Libertação.

O crescimento do Opus Dei, que chegou atualmente ao número de cerca de 80.000 membros, e que não é apenas numérico mas também de atividades apostólicas, só poderia provocar o mundo secularista. Certos ambientes secularistas habituaram-se a receber com satisfação sucessivas estatísticas da Igreja Católica, que aparentemente mostravam um incessante decréscimo do número de fiéis e de atividades apostólicas, bem como do número de membros de associações e de ordens religiosas.

O Opus Dei se encontra no meio de duas frentes de batalha eclesiásticas: em primeiro lugar o conflito entre os católicos “progressistas” que sempre invocam, geralmente de maneira inoportuna, o “espírito” do Concílio Vaticano~II, o qual poderia ser contrário à letra conforme o exijam certas situações, e os católicos fiéis à doutrina da Igreja Católica conforme ensinada por seu Magistério.

Em segundo lugar, o Opus Dei se encontra na frente de batalha entre o secularismo anti-católico e uma Igreja cada vez menos disposta ao papel de irrelevância social e cultural que lhe foi destinado pelos profetas do pós-iluminismo.

Trechos Relevantes do Artigo

Apresento a seguir alguns trechos bastante relevantes do artigo “Opus Dei and the Anti-cult Movement”, juntamente com sua tradução para o português.

Trecho em Inglês

The secularist anti-cult movement, as Messori cleverly points out, arises from a similar reaction. Sectors of the secularist world could not tolerate any “return to religion” which would turn the tables on what they had confidently predicted that would happen: “There was no longer any room for religion”, Messori says, “in a postmodern technological culture”. Or, in other words, what the proliferation of “new religions” proved was that “what was happening was exactly the opposite”, as always, “of what had been predicted by the usual 'experts': sociologists, futurologists, and even theologians and specialists in different religious matters, not excluding many priests and bishops” . As it had been forecast that religion was set on a course of irreversible decline and the new interest of young people for religious phenomena could not happen spontaneously, the anti-cult movement concluded that something sinister and non-spontaneous must have happened. It then applied to the religious movements the theories of “brainwashing”, that had been devised to explain the (relative) success of the communist North Korean and Chinese “re-education camps” during the Korean war. The enemies of the anti-cult movement (those groups that were accused of practising “brainwashing”) were, in the 1960's and 1970's, rather removed from the world of Christian Churches and worldwide Christian communities. The culprits were mainly the Children of God (now evolved into The Family), together with those whom the anti-cult movement would soon begin to call “the big three” among their adversaries: the Unification Church of Reverend Sun Myung Moon, Scientology, and the Hare Krishna movement.

Tradução para o Português

O movimento secularista anti-seitas, como inteligentemente observa Messori, surge de uma reação similar. Alguns setores do mundo secularista não poderiam tolerar qualquer “retorno à religião”, que provocaria uma virada de jogo em relação ao que deveria acontecer, de acordo com suas confiantes previsões: “Não há mais nenhum lugar para a religião”, diz Messori, “em uma cultura tecnológica pós-moderna”. Ora, em outras palavras, o que a proliferação de “novas religiões” provou foi que “o que estava ocorrendo era exatamente o oposto”, como sempre, “do que havia sido previsto pelos 'especialistas' costumeiros: sociólogos, futurólogos, e mesmo teólogos e especialistas em diferentes assuntos religiosos, sem excluir muitos padres e bispos”. Como fora previsto que a religião estava em um curso de declínio irreversível e o interesse dos jovens pelo fenômeno religioso não poderia ocorrer espontaneamente, o movimento anti-seitas concluiu que algo sinistro e não espontâneo deveria ter acontecido. Ele aplicou então aos movimentos religiosos as teorias de “lavagem cerebral”(grifo meu), que foram elaboradas para explicar o (relativo) sucesso dos “campos de reeducação” comunistas norte-coreanos e chineses, durante a Guerra da Coréia. Os inimigos do movimento anti-seitas (os grupos que foram acusados de praticar “lavagem cerebral”) eram, nos anos 60 e 70, muito distantes do mundo das Igrejas Cristãs e das comunidades cristãs ao redor do mundo. Os acusados eram principalmente os Meninos de Deus (que hoje se tornou A Família), juntamente com aqueles que seriam em breve denominados “os três grandes” pelo movimento anti-seitas, entre seus adversários: a Igreja da Unificação do do Reverendo Sun Myung Moon, a Cientologia, e o movimento Hare Krishna.

Trecho em Inglês

There then arose, as Messori points out, a new profession which offered the parents of those who had joined a new religious movement to be given a “brainwashing” in reverse. This “deprogramming” consisted in kidnapping the young person in question from the clutches of the movement, locking him up for some days or weeks in a motel room, or in a private house, and subjecting him to physical or psychological pressures until he renounced his adherence to the movement. The “deprogrammers” (whose activity seems to be in decline, but has not ceased altogether) were neither doctors or psychologists, but ex-members of those movements and, even more frequently, people who could only claim to have a notable physical strength, and before becoming deprogrammers had carried out various assignments which ranged from having acted as personal bodyguards to having been involved in thefts or in robbery. The lucrative business of deprogramming, which brought in ten to twenty thousand pounds per treatment for the deprogrammers, required an ideological justification, as well as a political structure to support them. Thus, the anti-cult associations were formed around the first deprogrammers. They were strictly secularist, and have now been transformed, little by little to become the present CAN (Cult Awareness Network) and AFF (American Family Foundation), which have supported with helps of various types the setting up of similar organisations in different countries all over the world. Some psychiatrists (severely criticised by their own professional colleagues) devised a theory of “mental manipulation” which in fact applies the metaphor of “brainwashing” (although they prefer to avoid that controversial label) to the activities of new religious movements in order to justify their deprogramming. The activities of these psychiatrists suffered a severe setback when, in May 1987, the American Psychological Association, perhaps the professional association with the greatest authority in the world in the field of psychology and psychiatry, rejected after an extensive study a report applying the theory of mental manipulation and of brainwashing to religious movements as “not scientific”. By changing their terminology and their names when needed, the activities of the anti-cult movements (and in a certain way also of the deprogrammers, although the best known had been arrested in different countries) have gone on until the present day. In the meantime, and in order to survive, the anti-cult movement and the deprogrammers have had to extend their theatre of operations, concerning themselves not only with the “big three”, or with The Family, but with a wide range of religious (and sometimes not even religious) groups, which were conveniently labelled as “cults”.

Tradução para o Português

Surge então, como aponta Messori, uma nova profissão que oferecia aos pais daqueles que se haviam juntado a novos movimentos religiosos uma “lavagem cerebral” em reverso. Esta “desprogramação” consistia no rapto do jovem em questão dos centros de seu movimento religioso, sua reclusão por alguns dias ou semanas em um quarto de motel, ou em uma residência privada, e em sujeitá-lo a pressões físicas ou psicológicas, até que ele renunciasse à sua adesão ao movimento. Os “desprogramadores” (atividade que parece estar em declínio, mas ainda não cessou totalmente) não eram nem médicos nem psicólogos, mas ex-membros daqueles movimentos e, ainda mais freqüentemente, pessoas que simplesmente possuíam uma grande força física, e antes de se tornarem desprogramadores tinham se dedicado a atividades que iam desde guarda-costas pessoais a envolvimentos em assaltos ou roubos. O lucrativo negócio da desprogramação, que rendia de 10 a 20 mil dólares por tratamento aos desprogramadores, requeria uma justificação ideológica, bem como uma estrutura política para apoiá-lo. Assim se formaram, entre os primeiros desprogramadores, as associações anti-seitas. Estas associações eram estritamente secularistas, e se transformaram pouco a pouco até se tornarem as atuais CAN (Cult Awareness Network) e AFF (American Family Foundation), as quais tem apoiado com vários tipos de ajuda o estabelecimento de organizações semelhantes em diferentes países do mundo. Alguns psiquiatras (severamente criticados por seus próprios colegas de profissão) desenvolveram uma teoria de “manipulação mental” que de fato aplica a metáfora da “lavagem cerebral” (embora este rótulo controverso seja evitado) às atividades dos novos movimentos religiosos a fim de justificar sua desprogramação. A atuação destes psiquiatras sofreu um grande recuo quando, em maio de 1987, a American Psychological Association, talvea a associação profissional com maior autoridade no mundo no campo da psiquiatria e da psicologia, rejeitou,após extenso exame, um artigo que aplicava a teoria da manipulação mental e da lavagem cerebral a movimentos religiosos como “não científico”. Modificando sua terminologia e seus nomes quando necessário, as atividades do movimento anti-seitas (e de certa maneira também as dos desprogramadores, embora os mais conhecidos tenham sido indiciados em diversos países) tem se mantido até o presente. Enquanto isto, a fim de sobreviver, o movimento anti-seitas e os desprogramadores estenderam seu teatro de operações, preocupando-se não mais apenas com os “três grandes”, ou com A Família, mas com um largo espectro de grupos religiosos (e algumas vezes nem mesmo religiosos), que foram convenientemente rotulados como “seitas”.

Observações Finais

Constato no grupo Opus Livre o aparecimento no Brasil de uma nova forma de ataque à religião, em particular uma nova forma de ataque à Igreja Católica. Este ataque parece visar especialmente os novos carismas da Igreja Católica, como o Opus Dei, o Caminho Neocatecumenal (sendo membro do Caminho Neocatecumenal recebi ataques semelhantes ao debater sobre as acusações ao Opus Dei), Renovação Carismática, Comunhão e Libertação, etc. O maior risco é o critério quantitativo que guia as atividades do Movimento Anti-Seitas, que se arroga o direito de definir o "nível máximo tolerável" de dedicação à fé.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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