quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O Crucificado fala com ele. Sua devoção

Saudações queridos leitores! Continuando nossa meditação sobre São Francisco, trago uma breve passagem do livro de Tomás de Celano, Segunda Vida de São Francisco de Assis.

10. Já inteiramente mudado de coração, e a ponto de mudar de vida, passou um dia pela igreja de São Damião, abandonada e quase em ruínas. Levado pelo Espírito, entrou para rezar e se ajoelhou devotamente diante do crucifixo. Tocado por uma sensação insólita, sentiu-se todo transformado.

Pouco depois, coisa inaudita, a imagem do Crucificado mexeu os lábios e falou com ele.

Chamando-o pelo nome, disse: "Francisco, vai e repara minha casa que, como vês, está em ruinas". A tremer, Francisco espantou-se não pouco e ficou fora de si com o que ouviu. Tratou de obedecer e se entregou todo à obra. Mas, como nem ele mesmo conseguiu exprimir a sensação inefável que teve, também nós vamos nos calar.

Desde essa época, domina-o enorme compaixão pelo Crucificado, e podemos julgar piedosamente que os estigmas da paixão ficaram gravados nele desde esse dia: no corpo ainda não, mas sim no coração.

11. Coisa admirável e inaudita em nosso tempo! Quem não se há de admirar? Quem já viu coisa parecida? Quem não acreditará que Francisco estava crucificado quando foi para o céu, sabendo que mesmo quando não tinha desprezado plenamente o mundo exterior ouviu Cristo falar da cruz, em um milagre novo e inaudito? Desde essa hora, em que o amado se dirigiu a ele, sua alma ficou transformada. E o amor do coração manifestou-se posteriormente pelas feridas do corpo.

Mas desde essa época foi incapaz de deixar de chorar a paixão de Cristo, mesmo em voz alta, como se a tivesse diante dos olhos. Enchia os caminhos de gemidos, e não admitia consolação alguma lembrando-se das chagas de Cristo. Um dia encontrou um amigo íntimo e também o levou a chorar amargamente quando contou a causa de sua dor.

Mas não se esqueceu de cuidar daquela imagem nem deixou de obedecer a sua ordem. Na mesma hora deu dinheiro a um padre para comprar uma lâmpada e óleo, para que a imagem não ficasse um só momento sem a devida honra. E, sem preguiça, tratou de fazer o resto, trabalhando sem cessar na reparação daquela igreja. Porque, embora lhe tivesse sido falado da Igreja que Cristo conquistou com seu próprio sangue, não quis ir de repente ao alto, porque devia passar aos poucos da carne para o espírito.

Tomás de Celano, Segunda Vida de S. Francisco de Assis, Cap. 6

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

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