quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Desmontando Nietzsche

Esse personagem da história moderna tornou-se insano, isto é, perdeu gradativamente a administração de suas faculdades mentais. Ao morrer estava sob tutela. E, antes disso, oscilava em períodos de euforia e depressão, próprios da loucura. Refugiou-se dos amigos; tentou suicídio. Daí a não aceitação de suas obras, àquela época, não se deu por ausência de quem as compreendesse. Mas porque a Europa daquele tempo contava com ilustres mestres Filósofos de conteúdo mais lúcido que Nietzsche. Este está sendo “redescoberto”? Acredito que não. O vejo para a filosofia como Dercy Gonçalves para o mundo artístico (com todo o respeito à pessoa de Dercy), como Godoy para o universo dos comentaristas esportivos, como o saudoso Juiz Margarida (que Deus o tenha) era para a classe dos árbitros. Marcaram não pelo conteúdo de suas ações, mas pelo modo como se postaram com irreverência. Ou seja, Nietzsche é mais ‘diverte’ que ‘filosofa’.

Isso é um fato compreensível da sua biografia. Nietzsche já se lançara antes escritor. Mas suas obras iniciais não seduziam ninguém, não interessavam, nem se conhecia. “Desconcertado, Nietsche se refugiou no trabalho” (Scarlett Marton, professora do departamento de filosofia da USP). Nesse momento que surgiu todo declive intelectual de Nietzsche. Voltou-se contra tudo, como uma ação última de desespero de quem quer ser reconhecido, deixar um nome dentre tantos nomes que a Europa da época já produzira. Foi, pois, uma transição brusca.

E aí está o problema: saber compreender, de pronto, o “Gênero literário” de cada obra de uma e outra época. Como pessoas sãs, e para alcançarmos “o segredo das coisas”, não podemos tratar uma novela como uma narração histórica, um poema como profecia, etc. Cada coisa deve estar no seu devido lugar. Não compreende Nietzsche não é quem o subestima, mas quem o superestima, e pensa estar lendo um gênero, no lugar de outro. Ele não fez filosofia, mas irreverência fictícia.

3) Outro aspecto que o descredita: ele deixa a evidência que, mas do que uma crítica sã à metafísica, a moral “não-nobre” (só a dele era nobre), ao cristianismo, e aos valores da época, Nietzsche faz é um desabafo ensandecido. Se eu fosse reinventar um título para O Anticristo, o que melhor caberia seria “Tratado do Ódio”. Daí o uso corriqueiro de superlativos negativos. Poucos fizeram, como tanta insistência, o uso desse tipo de linguagem. E a cada novo capítulo ele redescobria o que odiava mais: cristãos, cristianismo, teólogos, costumes de sua época, os judeus, judaísmo, metafísica, Kant e seu imperativo categórico. A cada novo capítulo, repita-se, Nietzsche encontrava algo que conseguia odiar com mais vigor.

Para não pensarem que repetirei a façanha, antes de explicar esse recurso, vou transcrever alguns trechos que solidificam a idéia lançada no parágrafo anterior:

“Canalha indecente” (ganha um doce quem disser de quem Nietzsche se refere...) (pg.82);

Que se deduz de tudo isto? Que, para ler o Novo Testamento, é conveniente calçar luvas. Diante de tanta sujeira, tal atitude é necessária.. Tanto evitaríamos os ‘primeiros cristãos’ como os judeus poloneses; não é que haja de censurar-lhes a menor das coisas...Ambos cheiram mal” (pg. 83 – grifo meu);

Sobre os cristãos:

os cristãos, essa ultima ratio da mentira, é o judeu, ainda judeu, triplicemente judeu...” (pg. 80);

...raquíticos judeus em grau superlativo, maduros para toda espécie de manicômios” (pg. 81);

o animal doméstico, do rebanho, a enferma besta humana – o cristão” (pg. 40).

é o cristianismo, não o duvidemos, são as apreciações cristãs que transformam toda revolução em sangue e em crime” (pg. 79);

Kant tornou-se um imbecil” (pg. 45);

os senhores metafísicos, os albinos do pensamento” (pg. 51);

era esse miserável Deus do monoteísmo cristão” (pg. 52)

Parece que foi prevendo Nietzsche que Rousseau disse que “as injúrias sãs as razões dos que não tem razão” (o senhor está certo, Rousseau...).

4) Um outro recurso dele (Nietzsche): a transfiguração (ou degeneração) dos conceitos e fatos históricos para servir-lhes de pretexto a seu tratado (do ódio). No meu ver, esse é o método mais desonesto de se fazer prevalecer uma tese sua sobre a alheia.

Vou dar alguns exemplos:

4.1) o critério histórico para conceituar um cristão não é quem desvalorizasse os valores, como Nietzsche quis afirmar que Cristo o fez. Deixa-me explicar melhor. Para Nietzsche, a verdadeira mensagem morrera na cruz. Jesus, como Thiago vive dizendo sem sequer ter lido a obra, teria revelado não uma mensagem messiânica, mas uma mensagem de rompimento com os costumes e valores de sua época; rompimento com o “culto institucionalizado”, com os jejuns e orações. [abrindo parênteses: Nietzsche, sobre essa ótima, não seria o anticristo, mas o próprio Cristo]. Pois bem, para Nietzsche verdadeiro cristão morreu na cruz, e os demais que o dizem seguir seriam falsários. Mas qual o engodo conceitual ai? Ninguém notou? Eu digo: o termo “cristão” foi inicialmente usado na comunidade de Antioquia (Atos 11,26). Daí em diante, designou-se cristão todo aquele que proferisse fé em Jesus como Cristo e Salvador, em oposição ao termo “judeu” e “pagão” ou “gentil”. Nietzsche desvirtua um conceito histórico, e passa a afirmar expressamente, como se fosse ele mesmo o critério de verdade, que cristão só é cristo, e implicitamente que ele também o seria;

4.2) afirmar que o imperativo categórico de Kant seria uma “ameaça a própria vida”, e não mencionando, intencional ou inocentemente (quem pode saber?), que o imperativo categórico, como pensado, é justamente a condição de manutenção da vida. A fórmula concebida, por um são para a perpetuação digna da espécie humana, e dos valores morais que o sustenta. Não é em vão que Kant e´, antes de tudo, considerado o percussor das bases da Ciência Jurídica;

4.3) colocar Paulo como o “idealizador do cristianismo”, olvidando-se: (a) que ele não era soldado romano (era cidadão de Roma, e não oficial), mas fariseu a serviço dos sacerdotes para perseguir cristãos; (b) que antes de Paulo havia, sim, um forte movimento em torno do nome de Cristo, e os próprios apóstolos, os primeiros apóstolos, já tinham firme a idéia messiânica de “fé como condição”, “salvação”, “ressurreição”, “Deus vivo”, “redenção”, “pecado”, etc. Nietzsche – só Deus sabe munido de que intenções – altera a ordens das coisas, a história e os fatos, colocando Paulo como percussor de tudo, como construtor do próprio cristianismo no lugar de Cristo;

4.4.) que o conceito de natureza, para ótica cristã, estaria em oposição a Deus; (pg. 49).

Eu poderia tratar por semanas. Seria divertido, se antes de criticar Nietzsche eu fosse sustentado. Mas não o sou. Então, sendo objetivo, vou destacar o golpe mortal, o absurdo de sua teoria conspiratória:

4.5) o Evangelho seria uma mentira. Chocante? Não. Ou melhor, até aí nem tanto. Mas eu diria genial (ou demasiadamente ingênuo) quando se analisa os fins de se propagar essa tese. Deixa antes eu explicar como consistiria isso. Ipsis litteris os evangelhos teriam sido adulterados. Nesse momento, deixa-me dar a dica, uma luz: Nietzsche sustenta a adulteração do Evangelho de Cristo, e não do Antigo Testamento. O AT (aquele que os judeus de Alexandria traduziram, e depois os judeus de Jâmnia catalogaram reduzindo 7 livros e fragmentos de outros dois) seria, para Nietzsche, todo ele uma criação sacerdotal, mas não objeto de fraude. Apenas o NT seria uma adulteração daquilo que Cristo tentou anunciar em vida. Por isso fala que o Evangelho morreu na Cruz.

Mas o curioso não é ele afirmar que o Evangelho seria modificado, mas se pôr na condição privilegiada de só ele (e os espíritos livres, os de moral nobre, os bem-cheirosos, os aptos a compreender seus livros, os mentalmente sadios, etc.) saber o que, de fato, Cristo pregou. Ora, se as únicas fontes da Palavra transmitida de Cristo, segundo o próprio Prussiano, seriam os Evangelhos, como poderia se sobrepor como Messias da razão e saber o que Cristo teria anunciado? Eu quero mesmo que todos entendam isso: para Nietzsche, o Evangelho nem acabou morrendo na cruz, mas sendo efetivamente transmitido em seu livro. Isso é uma retórica circular: a palavra foi fraudada, o evangelho distorce a realidade, mas só eu sei (falando como Nietzsche), pelos próprios evangelhos, o que seria “a verdade”. E é mais que circular, é contraditório. E com isso, se torna alheio às de críticas. Fecha-se a elas. Torna-se blindado do enfrentamento do que seria a “verdadeira filosofia”. Como a própria vida social de Nietzsche, sua filosofia é isolada em si mesmo.

Mas algo que pesa a favor das Escrituras do NT é simplesmente omitido. Se elas fossem mero objeto de impressão pessoal dos apóstolos, natural seria que eles dessem ao texto o tom que lhe agradassem; que não permitissem, nas menores passagens, a idéia de contradição ou de negação. Nietzsche mesmo não se aprofunda nas “chamadas contradições” e nem elas procura investigar porque sabia que aí sim estaria a derrocada de sua teoria da conspiração.

Outro aspecto que está a favor das Escrituras. Como falei em outra ocasião, muitos e muitos autores já se engajaram em tentar, dentro de cada área de seu conhecimento, entender esse Cristo [a quem amamos incondicionalmente, e, por graça, nos tornamos irmãos Dele e filhos de Deus]. E uma das áreas do conhecimento que enriqueceram bastante essa compreensão foi a psicologia. Exemplo disto foi o árduo trabalho de Augusto Cury, que lhe rendeu mais de uma década de pesquisas. Deixe-me contar a história mais uma vez.

Augusto Cury era, antes de tudo, um cientista cético, aparentemente incorrigível. Elaborou um trabalho (tese) que até os dias de hoje é festejada como magnífica. Chama-se teoria da Inteligência Multifocal. Uma obra esplêndida (no aspecto científico), mas de pouco serventia comercial. A própria editora alertou-o que isso estava além da compreensão acadêmica, não tendo, pois, comercialidade. A sugestão dada foi que Cury aplicasse essa teoria em alguém, extraindo os resultados. E o fez. Alguém se lembra quem serviu para esse experimento? Resposta: Jesus, Nosso Redentor, e mera cobaia, naquele momento, para Cury. As conclusões são únicas, excepcionais. Primeiro diagnóstico: Jesus não poderia ser, jamais, objeto de construção humana; ninguém poderia fantasiar ou falsear um Cristo nos moldes como se revela no NT; a mente humana não pode, nos aspectos psicológicos, conceber alguém como ele, criá-lo. Segundo: Jesus não poderia ser homem, somente Deus, filho de Deus. Terceiro: e igualmente importante crer em Deus não seria mero ato de fé, mas também de inteligência.

Entre as conclusões de alguém que já estava em estágio avançado de perturbação mental, isolado até entre os filósofos da época, rejeitado por si mesmo, e conhecedor das expressões psicológicas mediante as consultas eventuais que fizesse (ou seja, entre Nietzsche) e Cury, profissional e especialista da área dos perfis psicológicos e emocionais, além de administrador de suas próprias faculdades mentais, eu ficaria com quem? Respondo: Cury. E eis como Deus tem as fórmulas mais admiráveis de se revelar aos homens, e resgatar a fé.

4.6) antes que esqueça, o trabalho de Cury desmente outro engodo do Prussiano: a ciência e a medicina não estão contra o cristianismo, mas a favor para ajudar na compreensão de muitos aspectos.

4.7) Jesus teria acabado com todas as práticas e rituais sacerdotais, com ‘as fórmulas da religião’ a até com a oração (pasmem!). Vou transcrever (pg. 68/69):

“A vida do Salvador não foi outra coisa senão essa prática – assim também foi sua morte... Não tinha mais necessidade de fórmulas nem de ritos para as relações com Deus, nem sequer da oração. Acabou com todos os ensinamentos judaicos de arrependimento e de perdão...”.

O engodo, alguém descobre? Primeiro, Jesus não renunciara às práticas judaicas, mas deu-lhas efetivo cumprimento. Freqüentava as sinagogas (Mt 9,18 e 21,12; Lc 4,38; Jo 6,59 e 9,22), jejuou e pregou o jejum (Mt 17,21) orava (Lc 1,11). Aliás, sempre deixou evidente que, antes de sua pregação, fazia orações e jejuns, mostrando-nos ser este o modo de se abdicar de práticas “mundanas”, de romper com o pecado. Ainda sobre o pecado, ao falar a um dos ladrões crucificados que este ainda naquele dia estaria no Reino dos Céus, deixou evidente a concepção de arrependimento e restauração.

Cristo não contraditou a Palavra do Antigo testamento (O primeiro Verbo), mas, como disse o apóstolo João, Ele é a própria encarnação do Verbo (Jo 1, 1-18).

Nietzsche é desleal também nesse ponto: forja um Cristo que seja a imagem e reflexo dele próprio, e não é ele que almeja para si torna-se semelhante a Cristo, e reputa aos discípulos, e com maior ênfase a Paulo, a percha de desleal e adulterador. Fala em nome da história e das Escrituras, como o próprio louco a dissertar sobre sua sanidade. Ou seja, tudo que está além desse meu mundinho, está além da realidade. Como me disseram ainda ontem (mais uma homenagem ao amigo), “Nietzsche luta tão enfaticamente contra a razão que acaba morrendo abandonado por ela”.

Para que não me passe por golpista intelectual, deixe-me transcrever, mais uma vez os comentários que Scarlett faz ao “filósofo”: “Houve, porém, aqueles que decidiram colocar o filósofo ‘no seu devido lugar’, e tentaram detectar quais os seus textos haviam sido escritos sob efeito das drogas”. Deus tenha misericórdia dessa criatura chamada Nietzsche.

O interessante seria lerem todos a “obra”; obviamente, atentos ao gênero literário (como falado), a seu fim/objetivo, e as intenções ocultadas pelo autor, e a verdade e cientes, outrossim, que é um manuscrito deprimente e um estímulo a todos sentimentos anti-semitas e às idéias nazistas. [teoria da moral nobre, da superioridade dos espíritos livres, da defensoria da verdade e do amor à realidade, etc]. Não é em vão que muitos de seus textos sua irmã mercenária vendeu-os ao Nazismo, e as conseqüências desastrosas todos conhecemos...

Pois bem. Quem procura acha, e cada um com sua recompensa que deseja. Nietzsche quis ser o espírito livre do século XIX e do período subseqüente. Tentou matar Deus (referência ao significado conclusivo da obra) com as ferramentas que julgava ter a disposição, e como uma sádica ironia, morreu abandonando sem elas; tentou elaborar uma moral nobre, e sua nobreza foi em parte responsável (fundamento ideológico) pelas mortes de incalculáveis judeus inocentes - o que há de nobre nisso?; tentou transmudar valores, e sepultado foi sem noção do que seria valor algum: louco, pois!; quis ser livre, espírito livre, e morreu sob tutela. Seria, isto sim, Nietzsche, uma comédia perfeita, se não fosse sua tragédia.

Moral da História: Louvado seja Deus, porque não permitiu que nós, cristãos fôssemos “espíritos livres”.

Uma última passagem merece ser homenageada com nossa transcrição:

“Por isso, reitero o que já comentei. Crer em Deus é mais do que ato de fé, é um ato inteligentíssimo. É crer na possibilidade de continuarmos pensando, sentindo, existindo. É crer na possibilidade de reencontrarmos e convivermos com as pessoas que amamos. É ter esperança de reunirmos nossos filhos e amigos numa existência real e infindável. Sem a existência de Deus, nossa casa definitiva seria um túmulo lúgubre, solitário, frio e úmido. Nada poderia ser pior.

Todos os ateus que passaram nessa terra amaram a liberdade de pensar e de expressar suas idéias, inclusive e idéia que Deus não existe. Se essas idéias estivessem corretas, eles perderiam o que mais amavam, a liberdade de pensar, pois o caos da morte destruiria a memória deles e não haveria Deus para resgatá-las.

Quando era um dos mais céticos ateus, não imaginava que amava tanto a minha liberdade de pensar e nem compreendia que ler a memória e construir idéias eram processos tão delicados. Quando estudei algumas áreas da construção dos pensamentos e alguns relevantes papéis da memória, pude perceber que Deus precisa existir. Se Ele não existir, maus livros poderão ficar, mas do que nada do que fiz terá significado para mim, somente para os que estiverem vivos. Não seria nada além de um amontoado de pó mórbido e desorganizado.” (CURY, Augusto. O Mestre do Amor. São Paulo: Academia de Inteligência, 2002, p. 187).

Anderley Marques é advogado e mora na Paraíba.

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

2 comentários:

BLOG DO GIL disse...

Fernando, por acaso achei seu blog. Bom texto.

Até transcrevi algo atribuído a Anderley, de quem não sei o nome completo e o postei em

http://www.orkut.com.br/CommMsgs.aspx?cmm=3297113&tid=5228129321403709546

Edmilson disse...

Depois você vai descobrir o verdadeiro significado da filosofia de Nietzsche.